sexta-feira, 12 de junho de 2009

Briga no Bar (severamente não editado)

Eu nunca tinha entrado numa briga antes. A não ser que levar um soco na barriga de um outro menino um pouco mais velho chamado China quando se tem oito anos seja uma briga. Eu corri pra casa chorando feito uma menininha.

É por isso que eu nunca soube como era o sentimento de entrar em uma briga. Eu já participei de várias lutas em campeonatos de kung fu, perdí, ganhei, me machuquei, apanhei feio, uma vez cheguei a desmaiar. Mas aqueles eram lutas que você se prepara. Tem um treinamento intensivo e uma preparação física e mental. Além de tudo, você está lutando por lutar. Não tem moral em jogo. Não tem a mulher de ninguém em jogo.

Ela era linda, mas isso já devia ser óbvio. O que realmente importava pra mim era o quanto ela era decidida. Ela sabia se impor, sabia agir sob pressão e sabia lutar pelas coisas que acreditava. Eu sempre olhava pra ela como aquilo que eu queria me tornar. Isso me atraía.

Nós éramos amigos e mantinhamos um relacionamento divertido. Nada que chamasse a atenção de ninguém, ou assim eu pensava. Na verdade, me disseram depois que a gente parecia prestes a se tornar um casal, e que aquilo era estranho já que ela tinha namorado.

Ela nunca tinha mencionado um namorado antes e eu descobrí da forma mais estranha. Um dia, em um bar onde quase sempre íamos depois do trabalho, eu fui abordado por um cara mal encarado que me acusava de querer roubar a namorada dele. Ele estava em pé e eu sentado com mais uns quatro amigos. Ele estaria acabado se meus amigos não fossem tão frouxos.

Ele me empurrou com força suficiente pra eu cair da cadeira. Minhas pernas bateram na mesa e uma garrafa de cerveja caiu e rolou. Meus amigos estavam pasmos com aquela abordagem tão subta. Eu também estava completamente pasmo.

Eu levantei devagar, sob o olhar torto e curioso de todas as pessoas no bar. Eu nunca pensei que faria aquilo, mas não sei o que me deu. Eu sequer sabia de quem ele estava falando, mas mesmo assim eu disse:

-Na verdade, eu já peguei e não achei tão bom.

Eu pensei que a frase não teria o efeito que eu esperava, já que minha intenção era dizer que eu tinha pego a namorado do cara enquanto ela estava com ele. Felizmente parece que foi isso que ele entendeu. Ele pulou pra cima de mim e me acertou um soco perto do ombro. Até aquele momento eu não havia sentido nada de diferente. Não sei se foi por causa da dor, mas finalmente aquela sensação começou a vir.

Subtamente eu não via mais ninguém no bar. Não havia bar. O pequeno espaço onde eu estava em pé, entre o cara, a mesa e a parede do bar parecia ser grande o suficiente pra umas trinta pessoas. Minhas mãos estavam apertadas e eu tremia. Eu sentí uma energia me encher como se eu estivesse prestes a explodir. Minha cabeça estava limpa. Eu não pensava em nada. Apenas aquela sensação de poder.

Ele me acertou de novo, agora no rosto. Acho que eu sangrei nessa hora, mas não tenho certeza. Eu empurrei o corpo dele pra longe com o pé. Ele chutou a garrafa que derramava cerveja pra longe enquanto se afastava. Eu me aproximei mais e levei um chute nas costelas. Doeu.

A partir daí eu não lembro mais o que aconteceu. Me lembro de muito turbulencia e dor. Me disseram que eu apanhei muito sem quase tocar no cara. Parecia que eu queria apanhar. Parecia que eu estava deixando.

Quando minha memória volta a ficar consistente, eu lembro de estarmos fora do bar, a uma certa distancia um do outro, e várias pessoas ao redor. Elas não separavam a briga. Disseram que eu tinha gritado que não. Estava de cabeça baixa e sentia um incomodo, nao dor, apenas um incomodo, na perna direita e nas costas. Eu mal podia ficar de pé. Estava de cabeça baixa, mas conseguí olhar pra ele e ver a expressão de satisfeito. Eu me lembro de sentir um calor na minha boca e cuspir sangue. Me lembro de levantar a cabeça e sorrir. Me lembro até de pensar, mesmo naquela situação absurda, que meu ponto de antes não tinha ficado claro. Resolví clarear as coisas pra ele.

-E peguei quando ela tava contigo.

A expressão de satisfação dele se disfez em raiva. Eu lembro dele vindo em minha direção e eu sorrindo. Parecia camera lenta. Quando mais perto ele chegava mais eu ria e mais louca ficava a face dele. Ele pulou na minha direção e eu acertei um soco de direita no queixo dele. Ele não esperava por aquilo.

Ele caiu no chão ao meu lado. Tenho certeza que ele ainda tinha força pra levantar e me bater, mas acho que eu o atingí bem mais fundo do que um soco consegue ir. Eu o atingí com palavras. Ele meio gritava, meio chorava. Eu ainda sorria. Era um sorriso meio fraco e alternado com gemidos de dor. Eu não conseguia sentir minha mão direita. Ele olhei pra ele caído no chão.

-Quem é tua namorada? - Foi uma pergunta sincera.

-Amanda.

-Não cara, acho que tu pegou o cara errado.

Eu saí e fui pra casa. Não consegui dormir direito por vários dias com uma incrível dor nas costas. De vez em quando eu ainda sorria quando me lembrava. Eu continuei amigo da Amanda e as pessoas ainda diziam que nós parecíamos íntimos demais. Eu nunca notei.

Acho que eles foram felizes pra sempre.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Aprendendo

Hoje eu navegava em um site dedocumentação sobre Vi, quando me deparei com um manual chamado Sete hábitos para a edição eficiente de texto (http://www.moolenaar.net/habits.html). Logo no primeiro item, o autor identifica algumas práticas interessantes para navegação e sugere formas que podem ser usadas para acelerar ainda mais esse processo. É óbvio que, para se ser tornar eficiente em um editor como o Vi, é necessário conhecimento e prática na utilização de uma grande quantidades de comandos. Então, como se deve proceder para aprender todos esses comandos sem perder tempo e ganhando produtividade?

Para ilustrar a solução desse problema, o autor definiu três etapas básicas que eu vou trascrever aqui removendo as partes específicas de edição:

1. Enquanto você estiver ___________, preste atenção no que você está fazendo errado.
2. Descubra se existe uma forma de fazer isso corretamente. Leia, pergunte aos amigos ou olhe como os outros fazem.
3. Tente fazer você mesmo. Pratique até você conseguir fazer sem pensar.

Como você acha que aprendeu a andar de bicicleta? Como você acha que aprendeu a falar? Quando somos crianças nossa mente é aberta ao aprendizado e por isso nós sabemos intuitivamente como executar as etapas acima. Caí, então fiz alguma coisa errada. Vou descobrir como é o certo de algum jeito. Agora que descobrí, vou praticar. Simples.

Depois de algum tempo, nós ficamoss orgulhosos. Já somos adultos, já sabemos de tudo. Não é uma coisa ruim, é o instinto e nós devemos nossa modernidade (?!?) a ele. Então o que nós fazemos? Recorremos a professores.

Os professores executam as duas primeiras etapas pra nós. Eles observam o que há de errado e sugerem uma forma de ajeitar. Às vezes eles ainda chegam ao ponto de insistir pra você repetir aquilo até aprender. É um método muito eficiente, já que nós podemo nos concentrar no que estamos fazendo, ao invés de precisar se observar e policiar quase o tempo todo.

Alguém disse que as aulas destroem nossa criatividade. Não sei quem foi o gênio, mas acho que essa frase é atribuída a Einstein. Não importa. O fato é que está na cara o problema que acontece conosco durante nosso período de alunos: Nós nos tornamos preguiçosos.

Agora imagine qualquer coisa que você queira aprender. Qualquer coisa, mesmo aquelas que você vê alguém fazendo e acha que nunca vai conseguir. Ou algo que seja aparentemente impossível. De preferência algo impossível. Meu professor de música me dizia que se o impossível é melhor, porque você aprende logo e fica tudo muito fácil. Se for difícil, ai vai levar tempo...

Com sua lista de coisas pra aprender pronta, preencha a lacuna alí em cima. Se parecer utópico, melhor ainda. Quando mais absurdo ou bizarro isso parecer, maior será a sua recompensa.

Eu confirmo que funciona. Pra um exemplo um tanto inexperado, consultem O Jogo, de Neil Strauss.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Metal Heroes - Aberturas

Totalmente fora de escopo do meu blog, mas eu não podia deixar de publicar essa compilação.

Separei os troços por grupo. Apesar de serem todos Metal Heroes, cada grupo tinha uma temática diferente. Jaspion, obviamente, foi o primeiro a passar no brasil, seguido de Jiraiya. Existiram alguns outros além dos que eu listei aquí que não passaram no Brasil.

Xerifes Espaciais
Gyaban
Sharivan
Sheider

Os melhores e mais famosos
Jaspion
Spielvan

Os variados
Metalder
Jiraiya
Jiban

Os esquadrões com robôs
Winspector
Solbrain

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Jogo -> Celular

Terminei de ler o Jogo de Neil Strauss. Um dos melhores livros que já lí em toda minha vida, talvez o melhor. É sobre um jornalista (o próprio Strauss) que entra pra uma comunidade de homens que estudam como conquistar mulheres eficientemente. Muito instrutivo e divertido. Pode potencialmente mudar sua vida.

Comecei agora Celular, do Stephen King. Novamente voltando pro terror quero ter inspirações pra voltar a escrever regularmente. Nesse livro o King trás zumbis (ou a sua versão bizarra de zumbis) vagando pelo mundo. Estou me divertindo muito. O livro parece pequeno entretanto, mal comecei e já estou quase na metade.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Estranho, antigo, grotesco e bizarro

Neste último fim de semana terminei de ler A Tumba e outras histórias, um livro de contos do H. P. Lovecraft. A impressão geral que tive foi que tudo era muito estranho e antigo. Eu culpo em parte a infalável e indescritível impossibilidade de se fazer uma tradução boa do inglês antigo e estranho para o português sem enfiar um monte de adjetivos estranhos e grotescos.

Sério, o livro é todo assim. Muito ruim.

As histórias são muito boas, no entanto. Eu já havia lido algumas delas em inglês antes, como O Alquimista (The Alchemist), O Livro (The Book) e Azathoth (Azathoth), mas nunca tinha tido problema com a quantidade bizarra de adjetivos repetidos estranhos e antigos. (É difícil parar depois que se começa XD).

O livro que comecei a ler na sequência foi a versão original de The Game (O Jogo, no brasil). É simplestente a coisa mais genial que eu já li em toda minha vida. Mesmo sendo incrivelmente grande, e em formato de bíblia com letras pequenas, eu já cheguei na metade. Mas não posso comentar agora, deixa pra quando terminar. Só adianto que é um livro que muda sua vida.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Mudança de endereço

O blog agora está com o endereço certo.

http://pesadelosedevaneios.blogspot.com/

O sofá sob a árvore

Hoje terminei de ler Tripulação de Esqueletos, um livro de contos do Stephen King. Duas coisas me deixaram realmente impressionado:

Primeiro foi o conto O Nevoeiro. Esse conto é justamente o primeiro do livro, que eu comecei a ler no fim do semestre passado. Naquela época eu estava atolado de trabalho, como eu nunca ficara antes durante meu mestrado. Nas primeiras leituras - que eu faço sempre antes de dormir - eu avancei muito pouco, apenas acompanhando o suspense causado pelo nevoeiro sobre o lago. Foi durante meu voo pra casa que eu avancei mais, entrando na parte mais emocionante e indo até o final. Durante as 3 horas seguintes de voo eu li mais alguns contos, mas O Nevoeiro não me saía da cabeça. Era simplesmente genial.

Durante as férias eu descobri que um dos cinemas de Teresina havia sido reformado e reinaugurado. A reabertura consistiu de Max Payne e, vejam só, O Nevoeiro. Apesar de ser uma grande surpresa - eu cheguei a ficar arrepiado quando o Vinicius me contou - eu senti que fazia todo sentido. Esse conto é uma das coisas mais geniais que eu já li na vida. Totalmente merecia ter um filme.

A outra coisa que me impressionou foram as notas no final do livro. Nessa parte o Stephen King comenta como surgiu a ideia pra cada um dos contos. É impressionante a quantidade de ideias que vem de coisas reais, coisas que ele observa. Um vendedor de brinquedos na rua, um caminhão velho parado na estrada, uma tempestade ou simplesmente um lugar que ele visitou. Eu nunca acreditei realmente que o mundo tivesse tanto a oferecer em ideias pra histórias. Agora eu acredito. O livro na verdade serviu só pra me dar uma força, porque eu passei acreditar depois de algo que aconteceu comigo.

Eu estava indo almoçar em um restaurante que fica a umas duas quadras da minha casa. Fui a pé como sempre faço e passei por uma casinha diferente no caminho. Durante todo o ano que morei em Porto Alegre e caminhei na Barão do Amazonas, eu nunca tinha visto tal casinha. Era uma casa velha, mas sem destaque algum, exceto por um sofá que ficava do lado de fora da casa, em baixo de uma árvore. No mesmo dia eu pensei que eu poderia escrever um conto sobre aquilo, mas não o fiz. Acho que tive medo de estragar a ideia tão bela de um sofá em baixo de uma árvore.

Eu passei mais algumas vezes na frente da mesma casinha e o sofá ainda estava no mesmo lugar. Cada vez que eu olhava pra ele eu tinha certeza que eu poderia escrever um conto, mas chegava em casa e nunca o fazia. Um dia eu não encontrei mais o sofá.

Nesse dia eu havia ido pro restaurante pelo outro lado da rua, porque às vezes é difícil de atravessar a Barão do Amazonas, e esqueci do sofá. Na volta, eu voltei pelo lado certo e me assustei de ver, enquanto passava, vários homens com fardas azuis colocando proteções de metal ao redor da casa. Eram placas de metal grandes o suficiente pra não se ver nada por cima. Eu só reconheci o lugar pela copa da árvore sob a qual ficava o sofá. Eu senti como se o sobrenatural fosse esfregado na minha cara. Ninguém mais havia visto o sofá ou a casinha e agora eles estavam escondidos. Provavelmente tudo seria derrubado e o ponto viraria um daqueles pequenos comércios genéricos que se encontra tanto na Barão. Algum dia eu poderei me perguntar se houvera mesmo algum sofá em baixo de uma árvore...

De qualquer forma, só queria dizer que o livro é muito bom. Minha próxima leitura, que já tenho em mãos e começo hoje mesmo, é de um autor que sempre quis ler em português: H.P. Lovecraft. É um livro de bolso que o Rafael encontrou pra mim no supermercado do Shopping Bourbon por 13 reais (sim, 13 reais, parece até que os caras fizeram de propósito). Chama-se a Tumba e outras histórias.

Até mais.

Juan Ibiapina

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A propósito

Descobrí que o nono episódio da terceira temporada de Avatar tem o mesmo nome que meu blog: Nightmares and Daydreams. Traduzido em vários lugares como:

Pesadelos e Devaneios
Sonhos e Devaneios
Sonhos e Pesadelos
Pesadelos e Fantasias

entre outros.

É interessante então eu explicar o nome do meu blog né? É baseado no nome de um livro de contos do Stephen King chamado Nightmares and Dreamscapes, que foi traduzido pra Pesadelos e Paisagens Noturnas (?!?). Eu nunca me conformei como paisagens noturnas fica tão estranho em português. Eu nunca lí o dito livro na verdade, mas me pergunto o que ele quer dizer com Dreamscapes. Deve ser algo parecido com um devaneio, um tipo de sonho misturado com uma esperiência fora do corpo ou em algum lugar dentro da mente, como é típico do King. Eu prefiro nunca procurar o significado e ficar sempre me perguntando isso.

Juan Ibiapina

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Yeah!

Postei meu segundo conto completo, chamado Vazio. Quando eu comecei, o personagem principal era baseado no Renato, um cara que trabalha comigo. Depois, claro que eu viajei bastante e tudo mudou.

Eu sempre achei que o fim da história era alguma coisa óbvia, mas eu ainda não sabia o que era. Hoje o Schmitz, outro cara que trabalha comigo, praticamente esfregou o fim da história na minha cara sem saber. Valeu mesmo, cara.

Como ele foi feito sem nenhum planejamento, tem incoerências e vários problemas que precisam ser corrigidos. Claro que eu não vou fazer isso tão cedo porque já fiz toda a parte que acho divertida XD

Até mais a todos e divirtão-se como eu me divertí.

Juan Ibiapina

Vazio

Quando tudo começou eu ainda tinha cabelo. Não era muito e havia um buraco do tamanho de um vulcão na minha cabeça, mas eu tinha algum cabelo. Não que isso fizesse alguma diferença, mas eu gostava do meu cabelo. Eu andava por uma rua perto da minha antiga casa sozinho e à noite. Na verdade não havia nenhum perigo. Sempre fui grande e, apesar de um pouco curvado pra frente na época, eu podia amedrontar quando queria.

Eu era jovem e me lembro que achava muito legal andar sozinho em ruas escuras. Eu não imaginava que alguma coisa demais pudesse acontecer, mas não posso negar que essa era exatamente a sensação que eu tinha. A sensação de que quando se está sozinho o mundo parece mais estranho, menos mundo do que deveria ser.

Naquele dia fazia pouco frio, mas o vento cortava um pouco e eu andava com a cabeça baixa protegendo os lábios. Andando daquela forma eu não via mais que cinco ou seis metros na minha frente, mas ver a rua não era minha prioridade. Eu conhecia em detalhes cada casa, cada poste e cada esquina daquele lugar.

Andar por ali me lembrou um pensamento que eu havia tido alguns dias antes. Alguém poderia dizer que não acredita no sobrenatural mas sequer ter coragem de andar por ali. Se fosse o caso de andar, temeriam o que poderia sair detrás de uma mureta qualquer ou talvez do nada. A noite parece sempre ser muito sobrenatural pra essas pessoas. É engraçado como elas dizem que não acreditam no sobrenatural e ainda assim parecem ser incomodadas por ele.

Eu era muito cético na época. Não acreditava em nada que não pudesse ser visto ou calculado e também não acreditava na maioria das coisas que de fato podiam ser vistas. Não devo esquecer de mencionar que eu não acreditava sequer em mim mesmo ou na humanidade em geral. Apesar disso parece que é natural do ser humano ter aquele sentimento de pseudo-mundo quando se está sozinho.

Eu viajei em muitos outros pensamentos, alguns úteis, outros completamente irrelevantes, e talvez por isso não tenha percebido quando perdi meu caminho. Por quanto tempo eu andei sem direção eu não sei dizer. Quando dei por mim o chão estava coberto por uma névoa esbranquiçada, um tipo de fumaça talvez, que subia até o meio da canela. Não era pesada de forma alguma, pois eu não sentia dificuldade de andar, mas era estranhamente fria. Obviamente eu esperava que fosse fria quando tentei tocá-la com as mãos, imaginando que se tratasse de algum fenômeno raro que acontece no inverno, mas não estranhamente fria. Tocá-la era como por a mão dentro de um buraco, se é que tal sensação é descritível. Acho que o que eu quero dizer é que era como tocar o vazio. Não é como se não houvesse nada lá, mas a sensação que dava era que o mundo ficava menos mundo ao redor da minha mão. Essa foi a primeira vez que eu tremí naquele inverno e não foi de medo.

Sabe quando se dá uma tremida daquelas que parece subir pelas pernas, passar pela cintura e continuar pela espinha até a cabeça contorcendo e contraindo tudo pelo caminho? pois é, não foi dessas que eu tive. O que aconteceu foi muito mais forte que isso e não pareceu ser por causa do frio, quando posteriormente eu parei pra pensar sobre o assunto. Eu comecei a tremer lentamente, mas de corpo inteiro. Com o tempo eu comecei a tremer mais, chegando a um ponto que partes do meu corpo queriam sair do lugar. Cada órgão parecia estar revoltado e querendo mudar de posição. Eu senti cada osso do meu corpo tremendo. Comecei a sentir dor.

O que se passou depois eu ainda não sei se entendi completamente. Eu tremia de uma forma que parecia vibrar. Notei que não era apenas eu, mas tudo ao meu redor. Era uma sensação como se o mundo todo estivesse sendo fatiado. Parecia que eu estava num canal de televisão que está saindo de sincronização e algumas partes ficam se deslocando para os lados antes de tudo virar chiado. Minha visão escureceu e então eu não senti mais nada.

Quando eu acordei, deitado na rua no exato mesmo lugar, várias pessoas estavam aglomeradas ao meu redor me observando, como a um animal de museu. Ninguém se aproximava pra verificar se eu estava bem, apenas olhavam. Eu levantei e enquanto passava as mãos nas roupas pra tirar um pouco da sujeira da rua, perguntei para uma garota com uma farda de colégio o que havia acontecido. Ela me disse que quando chegara eu já estava caído e pessoas já se reuniam ao redor, não sabia ela porquê. Ela só ficara curiosa pra olhar. Todos pareceram concordar ao redor.

Eu caminhei o resto do caminho pra casa. Aparentemente eu não estivera perdido em momento algum, nem sequer me desviara do caminho de casa, a menos que meu corpo tivesse sido movido enquanto eu estava desacordado. Eu parecia intacto fisicamente, sem feridas ou hematomas, mas estava confuso. O que tinha acontecido comigo? O que tinha acontecido com o mundo naquela hora? Mas o que mais me intrigava era se alguém também havia sentido aquilo. O fato daquelas pessoas não terem achado estranho eu acordar caído no meio da rua só indicava que elas sabiam porque eu estava alí. Talvez elas tivessem apenas acordado um pouco antes de mim.

Quando eu cheguei na porta de casa - na verdade era uma pensão temporária onde eu morava havia pelo menos dois anos -, meu vizinho estava regando as plantas ao redor do caminho que levava até a porta de entrada da sua casa. Ele me olhou com uma cara de repreensão, aparentemente chocado com o fato de eu ter chegado depois do amanhacer. Ele já deveria estar acostumado. Pelo menos dessa vez não era minha culpa.

Ele continuou o sermão com os olhos enquanto eu atravessava o caminho do portão de entrada até a entrada da pensão. Eu apressei o passo pra evitar que o sermão mudasse de orgão dos sentidos, porque se ele começasse a falar seria ainda mais chato. Seria constrangedor eu entrar enquanto ele ficava do lado de fora berrando sozinho como eu era um mal exemplo pros filhos dele e pra sociedade.

Quando eu me aproximei da porta, finalmente aconteceu. Ele começou a reclamar, primeiro num tom baixo, mas depois aumentando como se suas palavras o dessem mais coragem ou certeza do que estava fazendo. Eu olhava pra ele com a mesma cara que o fazia todas as manhãs quando chegava, admirando como uma pessoa pode chegar num estado que perde totalmente a noção do que lhe é importante na vida. Eu tinha de me lembrar de nunca ficar daquele jeito. Decidí que naquele momento eu precisa entrar e descansar mais do que ficar admirando meu infeliz vizinho com seu miserável jardim. O problema é que eu não achava a maçaneta.

Quando olhei para a porta encontrei a maçaneta exatamente onde deveria estar. Minha mão, entretanto, não estava. Ela atravessava a madeira, e eu podia sentir o vazio no meu pulso. Sentia o frio como se uma parte do meu braço não existisse. Eu puxei a mão rápido pra fora com medo de que meu braço tivesse ido embora dessa vez, mas estava tudo inteiro, no lugar onde deveria.

Meu vizinho agora gritava como a sociedade precisava de mais pessoas decentes e como eu sou um exemplo de indencência e irresponsabilidade. Na época do avós dele uma pessoa como eu seria enforcada em praça pública para pagar pelos pecados. Eu me cansei daquela ladainha e me joguei na direção da porta. Como eu esperava, eu atravessei.

Quando entrei no quarto, meu colega se preparava pra sair pro trabalho. Ele me deu um olhar de esgueira, o que era estranho, pois ele sempre fazia um esforço pra ignorar totalmente minha existência, antes de sair apressado e deixar a porta aberta pra eu fechar. Por um instante eu tive medo de não conseguir tocar a maçaneta, mas dessa vez não tive problemas. Fechei a porta e fiquei dando voltas no quarto enquanto pensava. Depois de uns minutos deitei na cama e não conseguí dormir. Levantei e saí pra rua. Eu não tinha o que fazer e isso era o pior.

Quando eu atravessava a rua na frente de casa eu ouví um tiro. Em qualquer outro bairro poderia ser um escapamento ou qualquer coisa pesada que caía ao longe e confundia nosso medo, mas não naquele bairro. Era um tiro com certeza, e era perto. A porta da casa da frente abriu e um homem parcialmente encapusado saiu correndo com uma arma na mão e manchas de sangue na calça. Ele também carregava uma sacola marrom que fazia sons metálicos quando corria. Assim que saiu na porta ele virou pra direita, fazendo um arco na direção da cerca viva que separava a casa da dona Rosa do quintal do velho resmunguento que ninguém sabia o nome. O sobrinho do velho, um jovem de uns 25 anos que tomara conta do tio durante seus últimos anos de vida e agora habitava sozinho a casa, andava ao lado da cerca quando eu ouví o segundo tiro. O tiro atingiu o rapaz no ombro direito, depois outro tiro atingiu o peito. Eu ouvi o grito e depois o tombo.

O velho resmunguento nunca fora muito querido, e apesar de ninguém ligar a mínima, ele achava que todos o odiavam e queriam roubá-lo. Por isso havia arame farpado misturado à cerca-viva. Ele podia ser um velho louco, mas sabia o que fazia quando se tratava de fazer com as mãos. O arame era muito bem escondido dentro da cerca e colocado de forma a segurar e causar sérios dados a qualquer um que tentasse pular. O homem com a sacola marrom parou exatamente antes de encontrar o fim da sua fuga e correu na direção contrária, rumo à casa dos Mendes. Uma voz no segundo andar gritou que havia chamado a polícia, provavelmente o senhor Álvaro Mendes, querendo proteger sua família. Por algum motivo o homem desistiu de ir naquela direção, como se a polícia fosse chegar imediatamente de onde veio a voz, e mudou o caminho, indo agora na direção da rua. Ele vinha direto para onde eu estava parado.

Eu nunca entendí porque eu estive parado por todo aquele tempo, mas sei exatamente porque continuei parado. O homem olhou pra onde eu estava e eu pude ver, pela parte que faltava do capuz, o rosto de alguém em fuga. Havia pressa, determinação e destreza. Mas quando ele me viu, apareceu algo mais. Era medo.

Eu senti o medo que ele sentia. Senti a excitação e a adrenalina correndo nas veias, mas não consegui correr. Fiquei parado fitando os olhos do indivíduo, até ele levantar o braço e apontar a arma na minha direção. De todas as coisas que eu senti naquela época, essa foi a mais intrigante.

Não era como o medo por andar na rua solitário. Afinal, quando eu andava sozinho, estava acompanhado dos meus pensamentos e um pouco daquela ansiedade - acompanhada de cala frios - que é de certa forma agradável. Era diferente. Naquele momento eu não pensava, sequer sentia nada. Apenas sabia que a arma era real.

Não foi como encarar uma estranha fumaça sobrenatural. Apesar de a gente ponderar automaticamente os perigos quando se vê algo desconhecido ou que nosso cérebro identifica como perigoso, a arma parecia não ativar esse instinto. Não havia nada que ponderar. A arma era real.

Não foi como quando eu senti dor e vi o mundo se desfazer na minha frente. A dor e as perturbações nos sentidos me fizeram pensar que talvez eu fosse morrer, ou talvez não. Talvez aquilo fosse uma estranha e curiosa forma de encarar a morte. Havia curiosidade em mim então. Agora não havia curiosidade. Era uma arma. E era real.

O tiro atingiu meu ombro direito. Ainda vi o indivíduo correndo antes de minha visão ficar borrada e eu cair. Acho que desmaiei de alívio.

Depois disso minha vida mudou completamente. Não por causa do tiro, nunca acreditei nessa de ver a vida passar na frente dos olhos, mas porque depois de recuperado fui diagnosticado como esquizofrênico. Me disseram que eu falava muito enquanto dormia na cama do hospital, e meu companheiro de quarto havia confirmado, na ocasião de me fazer uma visita. Ele disse que eu fazia isso há muito tempo, talvez desde que ele me conhecia. Falar enquanto dorme aparentemente não tem nada haver com a doença, mas foi uma dica e eu acabei fazendo vários exames. Eu concordei com a coisa toda porque desconfiava da minha experiência sobrenatural.

Até hoje eu ainda trabalho como pesquisador. Agora sou muito mais famoso e já fui entrevistado várias vezes sobre como é enfrentar uma doença tão rara sendo uma pessoa tão solitária. Eu solto sempre a mesma história de que é uma questão de força de vontade, seguir o tratamento e ter fé. Grande mentira, nunca fiz nenhum tratamento.

Algumas vezes quando não encontro a solução de algum problema, meu companheiro de quarto, que agora mora comigo na minha mansão, me da algumas dicas. Quando chego em casa bêbado às cinco da manhã, meu antigo vizinho - que agora se mudou para a casa do lado da minha com um jardim ainda mais feio que o anterior - me lembra de como eu não quero ser quando ficar velho. Às vezes uma multidão de pessoas, dentre elas uma linda garota com roupas de colegial, se reúne ao meu redor quando estou prestes a terminar alguns cálculos que já sei que vão ser uma nova descoberta. Elas aguardam até eu revelar que fiz uma descoberta e comemoram junto comigo.

O mais legal é de vez em quando atravessar a porta de casa, ou alguma parede, ou mesmo atravessar a cama enquanto durmo e acordar em baixo dela. Sei que a faxineira as vezes olha estranho pra mim, e várias vezes senti que ela estava prestes a perguntar alguma coisa, mas prefiro que ela não diga nada. Prefiro continuar acreditando que posso pegar um atalho rápido de um cômodo pro outro como ninguém mais pode. Não me interessa o que acontece "de verdade".

sábado, 10 de janeiro de 2009

2009

Acabei de fazer meu primeiro post de 2009. Um conto completo, com início, meio e fim. Uma idéia que eu tive de madrugada e levantei pra escrever. Uma inspiração que me veio com a frase "os projéteis eram explosivos", que eu não sei de onde saiu. Eu simplesmente sabia, assim que eu pensei essa frase pra mim mesmo, que havia algo vindo e que eu tinha que escrever. O tempo que eu levei pra levantar e ligar o PC foi suficiente pra saber o que iria acontecer e sentir eu mesmo um grande respeito por Will.

Eu queria contar essa história em paralelo com a história dos garotos nos sacos de arroz, mas eu achei que iria demorar e simplesmente escrevi sem me preocupar. Principalmente, eu queria terminar o conto, sabia que podia terminar, e estou orgulhoso de ter terminado. Algumas vezes me faltou a confiança pra terminar, mas não dessa vez.

Gostaria de mencionar também que muitas das imagens que eu vi enquanto escrevia eram muito parecidas com o Resgate do Soldado Ryan. Além disso, por algum motivo, Caim Rebelado e Aqui Há Tigres - dois contos do livro Tripulação de Esqueletos, que estou lendo - vieram muito na minha cabeça enquanto eu escrevia. Parece que, no final de tudo, ler é que faz o verdadeiro escritor.

Uma bala

Nós demos o azar de sermos os primeiros a chegar na praia. Nosso transporte foi o primeiro a abrir a proteção blindada e fomos os primeiros a pisar na areia.

Éramos mais ou menos uns vinte, somente naquele transporte. Muitos eu nunca havia visto antes, mas alguns, como Will, Denis, Albuquerque e o Parcão eram colegas desde que havíamos nos alistado. Will era meu colega desde que brincavamos de soldado com pedaços de pau que encontravamos na rua.

Havia pelo menos umas outras cinquenta embarcações como a nossa que chegavam cada uma a seu tempo na praia. Dentro de dez minutos pelo menos mil homens armados com rifles M16A2 corriam em direção à encosta. Nós íamos na frente.

Quando os tiros começaram, eu não tive coragem de olhar para frente. Nós enfrentávamos algum inimigo que nos esperava, pois estávamos sendo atacados totalmente fora da nossa distancia de tiro. Teríamos que continuar correndo feito loucos até encontrar alguma proteção. Eu corria sem ver por onde ia, dando apenas algumas olhadelas para Will, que corria um pouco atrás de mim com os olhos firmes no objetivo à frente. Eu confiava que ele sabia onde estava indo.

Eu vi Will levar o primeiro tiro logo acima do joelho direito. Ele caiu e eu acho que chorei.

Eu não sei por quanto tempo eu ainda corri, mas suspeito que foi uma fração de segundo. Eu lembrei de quando a gente se escondia no quintal da velha Marta, por causa dos sacos de arroz que ela guardava lá o ano inteiro, que eram perfeitos pra servir de barricada pros nossos tiros de mentirinha. Will, eu e outros garotos corríamos com pedaços de pau entre os sacos de arroz com uma mão na cabeça, desviando dos tiros e segurando o capacete, como víamos nos filmes. Era sempre muito emocionante.

Um dos tiros pegou ao lado do meu pé esquerdo. Eu senti uma dor muito forte no tornozelo e não consegui mais correr. Quando me dei conta já estava no chão. As malditas balas eram pequenos explosivos de fragmentos, que lançavam pedaços de chumbo logo no primeiro impacto. Will estava a menos dois metros atrás de mim. Eu podia ver o osso no grande buraco que a explosão da bala havia deixado na perna dele.

Ao nosso redor os soldados começavam a fraquejar. A emoção e a adrenalina que juntávamos dentro dos navios com nossos cantos de guerra agora eram consumidas pela visão dos companheiros serem atingidos por aqueles projéteis explosivos, malditos projéteis que não matavam imediatamente a pessoa, mas roubavam todo seu moral. Roubavam o moral de todos ao seu redor.

Eu ainda olhava ao redor quando Will levou o segundo tiro. A bala atingiu o lado direito do seu rosto. Ele era agora uma feição de gritos e desespero, meio homem, meio sangue. Dentes voaram junto com os fragmentos de bala e os detritos de moral que aqueles projéteis arrancavam.

Will ainda gritava de dor quando começou a descer o braço direito em direção à perna. Ainda havia determinação no seu olho esquerdo - o olho restante - suficiente para procurar o revolver que estava na cintura.

O terceiro tiro o atingiu na articulação do cotovelo. Seu braço desabou, mas ficou pendurado por um pedaço de pele, ou de músculo ou de alguma coisa que eu não sei o que era. Ele não pode realizar seu último esforço de lutar e eu vi a determinação e a desistência tomarem conta dele.

Ao redor muitos homens paravam e começavam a correr de volta na direção dos navios. Muitos levavam os companheiros, quase sempre sem pernas ou braços, simplesmente porque não conseguiam se desligar de amigos como aqueles. Muitos homens estavam abandonados com buracos em quase todos os lugares, mas eu não avistei nenhum homem morto. Foi então que entendi o desejo de meu amigo.

Levei minha mão a meu próprio revolver - eu nem mesmo sabia aonde tinham ido os rifles, acho que foi a primeira coisa que abandonamos quando caímos - e apontei para o rosto meio vivo de Will. Ele me viu e por um instante parou de gritar de dor. EU vi a gratidão nos seus olhos como somente amigos de muito tempo conseguem ver. Puxei o gatilho apenas uma vez, sem vacilar, sem errar.

Apenas uma bala convencional. Digna. Com honra. Uma bala que o libertaria. Eu gosto de acreditar que Will foi o primeiro a pisar naquela praia e o primeiro a morrer. Talvez o único a levar consigo sua honra.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Fleeting glimpse

Ontem eu terminei de ler Lisey's Story do Stephen King. Acho que foi o livro que demorei mais pra terminar. Em várias partes eu tive que me esforçar muito pra continuar lendo e não desistir. Achei muito repetitivo, muita confusão mental e pouco conteúdo.

Depois que terminei de ler, eu guardei o livro no armário da sala, onde ficam todos os meu livros mortos. Enquanto eu estou lendo um livro, ele dorme na minha mesa de cabeceira. Depois que eu termino, ele deve sair imediatamente pra dar lugar pra outro, mesmo eu não vá começar o outro naquele exato momento. Nesse caso Lisey's Story deu lugar pra Tripulação de Esqueletos, uma coletânia de contos do Stephen King que eu comprei a um tempo atrás com medo de acabar Lisey's Story e ficar sem o que ler. Imagine só que absurdo seria terminar um livro, guardá-lo no cemitério dos livros mortos e deixar a mesa de cabeceira vazia...

Por ser um livro de contos, acho que Tripulação de Esqueletos vai me ajudar com minha escrita. Vou poder observar como é a narrativa de um conto e melhorar os meus. Fiquei um pouco triste, entretanto, quando olhei o índice do livre assim que o comprei. Achei que tripulação de esqueletos seria algo sobre um navio fantasma, não um conjunto de contos que provavelmente não tem nenhuma conexão com nada, exceto com a torre negra talvez.

Mas contos talvez seja o que eu preciso mais agora. De acordo com Stephen King na própria introdução do livro, com o romance você desenvolve um relacionamento muito mais profundo, enquanto com o conto é algo mais casual, algo como um flerte. Uma espiada rápida num mundo de fantasia muito maior. Um vulto sorrateiro que se vê com o canto do olho. Uma sombra que você vê no espelho milésimos de segundo antes de perceber que é apenas seu próprio reflexo. Ou não era?

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Planos

Eu devo pedir desculpas por misturar tantas histórias. Por um lado eu estou feliz com isso, porque significa que minha criatividade está voltando, por outro eu fico triste porque não consigo terminar o que já tinha começado e ainda confundo todo mundo.

Pra melhorar essa situação pra todos nós, resolví acelerar a inauguração do meu portfolio. Assim que a Vanessa aprovar um layout criativo e ao mesmo tempo profissional, vou publicar dois pequenos contos. O primeiro é sobre um cara que enfrenta o sobrenatural pela primeira vez. Tem um rascunho desse conto aqui no blog, na parte de rascunhos, mas está grosseiro e sem título. Vou ajeitar antes de postar, óbvio, é bom que treino como incrementar e revisar meus próprios textos. O segundo é esse que estou começando agora (Steve), que quero me dedicar exclusivamente nos próximos dias, como treinamento pra focar minha mente em escrever uma história só.

Obrigado ao pessoal que vem aquí, pelas sugestões, incentivo ou simplesmente por apreciar XD

Steve - 1

Steve cambaleava pelo meio da rua. As calçadas estavam lotadas com o pessoal que saía do show - cabeludos de preto com cigarros na boca e mulheres com o que parecia ser no mínimo uma centena de peças de metal penduradas no rosto -, por isso ele resolveu pegar o caminho mais fácil. Havia bem menos fumaça de cigarro e em um beco como aquele era improvável entrar algum carro. Por baixo de um terno marrom agora muito bagunçado ele usava uma camisa social azul-marinho quase toda aberta e mais por baixo uma camisa preta com uma foto do primeiro album do Rainbow, aquele com um arco-íris sobre uma torre negra.

Ele havia bebido muito e sabia que não podia dirigir. Sabia que devia pegar um taxi, mas não o fez. Quando viu as calçadas lotadas ele pensou que andar pela rua seria o único jeito de passar por aquela gente de forma rápida e instantaneamente decidiu fazê-lo, sem sequer pensar qual seria o objetivo disso, sem sequer saber aonde estava indo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Portfolio on its way

Hoje achei um editor bem legal que vou usar pra organizar meus textos e preparar os arquivos PDF. Vou criar meu portfolio e disponibilizar esses arquivos, possivelmente colocando uma forma automática de visualizar no próprio navegador, com índice e tudo. Eu espero que funcione.

Enquanto isso não sei se vou escrever, final de período é complicado. Mas eu vou sinceramente tentar, nem que seja de madrugada, como agora.

Obrigado aos que me acompanham XD

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Mais cedo

Eu acordei de manhã e o quarto ainda estava frio, mas eu sequer lembrei de ter acordado de madrugada. Quando eu saí do banho meu irmão estava no quarto. Ele já havia arrumado a cama, guardado os lençóis e recolhido a roupa que estava no cesto. Agora estava sentado na cadeira do computador, de pernas cruzadas, esperando pacientemente. Eu ainda estava de toalha quando ele começou a falar.

-Minha viagem teve que mudar de horário com urgência. Estou indo agora. Não esqueçe de acompanhar a faxineira amanha às seis. E nem pense em ligar o ar condicionado de novo, quando eu voltar falaremos sobre isso - Ele ainda completou quando ia saindo - Um amigo te ligou, falou pra retornar.

Ele saiu antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa. Se alguém havia ligado era quase certo que era sobre a tatuagem, confirmando o horário amanha. Ninguém costumava me ligar. Mas meu irmão não pareceu estar com raiva, então talvez a pessoa que ligou não tivesse dito nada.

Eu ouví o som da porta da frente sendo trancada e me deu aquela sensação boa de ficar sozinho em casa por uns dias. Dei umas voltas pela casa, como que marcando o território onde eu poderia andar de toalha. Quando cheguei na cozinha lembrei que teria que esquentar a comida pra almoçar. Decidí comer fora.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A sala do conselho

Os Magos da Ordem que voltavam do mundo lá de baixo nunca revelavam para ninguém qual era seu artefato, exceto para o Conselho. Quando eles regressavam para a ilha, eram imediatamente chamados para uma reunião onde eles apresentavam sua arma e recebiam o direito de permacener na ilha sem contribuir com o cristal. Caso não trouxessem sua arma, não poderiam ficar na ilha e eram mandados de volta.

O único aviso que alguém havia voltado era a sala do Conselho. Ela ficava sempre aberta, e era possível ver a longa mesa coberta com um pano roxo, e as cadeiras de encosto longo que a envolviam. Nos quatro cantos da sala haviam estátuas dos Quatro Grandes Magos fundadores da Ordem, que os mais velhos diziam que protegiam o conselho. A estátua do Quinto Grande Mago ficava atrás da cadeira do mestre do conselho, em um dos cantos da mesa. Quando alguém voltava, as portas eram fechadas. Elas ficavam fechadas por horas. Elas ficavam fechadas por horas enquanto muitos pais cujos filhos haviam descido se aglomeravam em frente à porta na esperança de que seu filho houvesse voltado.

Naquele dia, Victor estava na frente da porta acompanhando seu pai, Hector. Ele havia chamado o garoto para ver quem iria aparecer dessa vez.

-Mas pai, não estamos esperando ninguém voltar, estamos? - Victor pengutara enquanto atravessavam o pádio na direção das portas do conselho. Ele andava de cara fechada ao lado do pai que flutuava alguns centrímetros acima do chão, apenas um pouco inclinado para a frente, como sempre fazia. Hector o acordara cedo demais, era natural para um garoto de oito anos reclamar.

-Não, filho, não estamos. - Hector pegou Victor nos braços e completou seriamente: Não fale mais nisso, apenas veja.

Victor obedeceu. Ele confiava no seu velho pai.

sábado, 11 de outubro de 2008

Dark side

Everyone has a dark side. The good thing about living with yours all the time is that you learn how to deal with it, how to control it. This is not a tale, it's a real story.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Na borda da ilha

Victor estava sentado na borda da ilha. Ninguém vinha naquele lugar e ele podia passar o tempo que quisesse olhando o mundo lá de baixo desde que se mantivesse invisível e em silêncio. De vez em quando um guarda passava perto , mas quase nunca notavam nada. Uma vez ou outra algum guarda com uma intuição melhor chegava a parar e olhar para os lados desconfiado, mas Victor sabia que olhar para as coisas era o que enganava a maioria dos magos da Ordem. Se um guarda subtamente fechasse os olhos e tentasse sentir alguma coisa, aí ele estaria em problemas.

Para chegar alí ele tinha que pular um muro que todos achavam que fazia parte da borda da ilha, como todos os outros muros. Apenas os guardas e talvez os altos membros da Ordem soubesse que atrás do muro havia um pequeno terraço de onde dava pra ver o mundo lá de baixo. Seu pai havia lhe ensinado esse segredo dez anos atrás. Foi a última coisa que ele lhe ensinou antes de morrer.

Victor era o único dos jovens aprendizes da Ordem que conseguia pular o muro. Muitos tentaram alcançar a parte de cima para dar uma espiada no mundo lá fora mas nunca chegaram a alcançar o topo. Victor pulava mais alto que todos. Ele quase voava.

Aquela era uma noite especial. Era a noite da Dança da Descida. Ele e mais uns 20 ou mais aprendizes estavam agora com 22 anos e o treinamento completo. Victor se aplicara para ser um dos que desceria. Seu pai havia lhe recomendado que o fizesse quando ele tinha apenas oito anos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O incidente na biblioteca

Victor era um dos garotos que queria ser mago. Ele começou seu treinamento muito cedo, quando seu pai ainda era vivo. O velho gostava muito de voar - era um dos poucos da ilha que conseguiam fazê-lo - e Victor herdou sua paixão. Quando tinha seis anos ele subiu num armário da biblioteca da Ordem durante um passeio da escola e tentou voar. Claro que ele fracassou e se machucou na queda, mas isso não o afetou. Ele já subia pra tentar novamente quando o professor Clinton - uma mago velho e com idéias de outros tempos - o segurou. Quando Clinton perguntou, curioso, o que havia naquela sala que o incentivava a tentar voar, ele respondeu que estava tudo parado. Uma boa percepção para um garoto de seis anos.

Depois desse incidente, seu pai - outro velho, não tanto quando o professor Clinton, mas que já andava a passos lentos - resolveu que iria colocá-lo pessoalmente no caminho da magia. Era cedo ainda, o treinamento da Ordem não começaria até os doze anos, mas ele sentia que o garoto tinha o dom.

A ilha voadora

Era uma ilha flutuante. Ela ficava pendurada no céu, viajando sobre mundo lá de baixo sustentada por nada, exceto sua própria magia. As pessoas nessa ilha faziam parte do que eles chamavam de a Ordem dos Magos, que usava a magia como uma forma de religião. Cada Mago, durante todo o período que ficava acordado, enviava magia para um cristal localizado no centro da ilha. Esse cristal era o que mantinha a ilha flutuando. Sem os magos pra manter o cristal abastecido, a ilha com certeza cairia.

Por causa disso eles sempre treinavam as crianças nos caminhos da Ordem. Durante os treinamento eles analizavam as capacidades de cada um e calculavam o quanto eles deveriam doar por dia para o cristal. Algumas crianças cresciam e continuavam na ilha, treinando seus filhos e netos para serem magos, mas outras a deixavam à procura do artefato que lhes pertencia.

Cada criança tinha um artefato. À medida que eles treinavam, o artefato ficava forte junto com eles, e na idade de 22 anos eles deixavam a ilha à sua procura. Poucos voltavam lá de baixo, e os que voltavam se comportavam diferente de antes. Nunca eram a mesma pessoa.

No entanto, a maioria dos jovens queria ir. Era um orgulho pra eles ser escolhido para ir pro mundo lá de baixo e ter a honra de procurar sua arma. Eles faziam um ritual antes de partir, com juramentos e despedidas - chamado de a Dança da Descida - e era essa a lembraça que todos guardavam deles, orgulhosos de sua coragem. O que atraía os jovens na verdade não era a honra, ou o orgulho, mas apenas curiosidade. Eles queriam conhecer aquele mundo lá de baixo, um mundo desconhecido. Queriam se aventurar e descobrir o que seus pais não haviam descoberto. Queriam liberdade.

Chame-o de Jonatas

"Agora que você começou a tocar a gravação pela segunda vez, eu suponho que você esteja em um bar. Eu preciso te avisar, essa não é uma boa ideia. Como eu sei que você provavelmente tá tomando alguma coisa muito forte e muito barata e sei que você não vai me obedecer, eu não vou sequer pedir pra você parar de ouvir. O engraçado é que somente agora você deve estar percebendo que é a sua voz na gravação. Eu sei que você não percebe as coisas quando acorda e sabia que você viria exatamente pra esse lugar. Peça um whiskey caro e aproveite, seu cartão está na jaqueta."

E estava. No bolso interno do lado esquerdo. Ele aproveitou pra revirar os outros bolsos, havia mais três do lado de dentro, uma quantidade estranha pra uma jaqueta comum, seis bolsos no total. Do lado direito havia uma caneta e um bloco de notas que ele não se deu o trabalho de olhar. Nos bolsos de baixo ele encontrou um molho de chaves preso em um chaveiro prateado em forma de T, um relógio de pulso que marcava 19:42 - certamente errado, pois ainda não devia passar das nove - e uma identidade com sua foto, no nome de Flávio Costa. O homem olhou para o atendente, um rapaz de uns vinte e dois anos com o cabelo preto espichado, e pediu um Springbank trinta e dois anos. O rapaz disse que nunca tinha ouvido falar de tal marca. Um pouco decepcionado, o homem recomeçou a tocar a gravação, ia continuar na cachaça, serviria muito bem.

"Chame-o de Jonatas."

O homem de jaqueta de marrom olhou por sobre o balcão. O atendente estava do outro lado, perto da máquina registradora, recebendo o pagamento de uma senhora gorda, com um vestido roxo especialmente reluzente e fora de contexto naquele lugar.

-Ei, Jonatas.

O rapaz olhou pra ele e levantou uma sobrancelha que se dobrou quase no formato de um ponto de interrogação.

domingo, 5 de outubro de 2008

Frio

Eu acordei com frio no meio da noite. Eu não lembrava de ter ligado o ar condicionado antes de dormir, mas não tinha certeza. Eu ainda estava naquele estado onde você não sabe o que é real e o que é sonho. Talvez tivesse ficado muito quente durante durante a noite e meu irmão tivesse entrado no meu quarto e ligado o aparelho pra eu me sentir melhor. Ele já havia feito isso algumas vezes. Eu voltei a dormir.

Eu acordei novamente e dessa vez estava muito mais frio. Talvez meu irmão não tivesse regulado numa temperatura boa. Eu puxei mais lençóis e me encolhi - não ia levantar pra baixar o ar a menos que ficasse realmente incômodo e acabassem as cobertas. Voltei a dormir.

Quando eu acordei pela terceira vez, não tive aquele estado semi-dormindo. Acordei rapidamente porque estava realmente muito frio, de uma forma que o ar condicionado do meu quarto - comprado de segunda mão - nunca tivera capacidade de deixar. Imaginei se o inverno tinha chegado antes da hora. Bem antes da hora. Quando eu joguei as cobertas pra longe pra levantar e desligar o ar condicionado eu senti um vento quente passando por mim. Nesse momento eu percebí que o ar condicionado não estava ligado. Não havia nenhum barulho, apenas o frio. Eu levantei e pequei os lençóis que haviam escorregado para o lado da cama. Estavam gelados.

Eu deitei na cama novamente pra pensar sobre o que aconteceu. Acho que voltei a dormir.

Não trabalhando

No dia seguinte eu acordei cedo para ir ao escritório. Eu não possuia muitos clientes naquela época. Minha longa carreira de sucesso como detetive me dava um razoável poder de escolha e eu fazia uso dele pra pegar só com os casos mais interessantes. Naquela manhã eu não tinha nada pra fazer, estava indo ao escritório apenas para não ficar sozinho em casa, já que Manu passaria o dia no trabalho. À noite, entretanto, viria a diversão de verdade, quando eu iria fotografar uma mulher chamada Amanda Scheis, à pedido do marido, o senhor Júlio Scheis. Ele tinha me procurado na semana anterior para fazer uma investigação sobre os lugares que ela frequentava depois do trabalho, pois ele suspeitava que ela o estivesse traindo. Havia muito tempo que eu não pegava um caso de investigação matrimonial mas abrí uma exceção para aquele. O senhor Scheis insistiu que eu era a pessoa certa, que sabia da minha reputação e que precisava de alguém que fosse ser totalmente discreto. Pra mim isso foi só encheção de linguiça. O que me convenceu foi o preço que ele resolveu pagar por umas simples fotos que qualquer pessoa poderia tirar, até mesmo ele. Mas eu gostava de seguir pessoas à noite, você nunca sabe pra onde elas vão te levar.

Eu passei a maior parte da manhã sem trabalhar, como imaginei que seria. Eu tinha um ou outro caso pra terminar, mas eu já havia coletado todas as informações que precisava e ainda não tinha conseguido montar o quebra-cabeça. Eu não ia trabalhar neles novamente até que minha mente viajasse um pouco, amadurecesse. Durante esse tempo, navegando na internet, eu comprei duas gárgulas que ainda não estavam na minha coleção e lí alguma coisa do Lovecraft. Justamente durante essa leitura, uma mulher entrou correndo desesperada no meu escritório, falando muito rápido alguma coisa inintendível.

Era uma mulher gorda, usando um vestido cuja cor eu só conseguia pensar como laranja desesperado. Ela estava com os cabelos loiros e cacheados muito assanhados e com olheiras do tamanho de lagos sob os olhos. Segurava uma pasta preta com alguns documentos. Eu oferecí uma cadeira, mas ela não quis sentar. Eu gostei disso. Não estava interessado no caso dela e em pé era mais fácil ela alcançar a porta. Ela conseguiu se acalmar um pouco e começou a explicar o que queria.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O trabalho que faremos

Durante muito tempo várias modificações foram feitas à classificaçào das cores. Da reta os estudiosos passaram pra um triangulo de cores e posteriormente para todo o espectro. Essa classificação, ainda assim, era incompleta e tornava complicado o processo de caracterizar cada magia em relação à sua respectiva cor.

Outro aspecto é que o uso de mana não corresponde sempre ao previsto pelo modelo. Muitas variações acontecem devido à afinidade de cada pessoa com algum tipo de mana, estado emocional do usuário e até mesmo prática. Um usuário excepcional pode fazer magias muito poderosas utilizando quase nenhuma mana.

Existem muitas outras classificações para a magia que se tornam cada vez mais complicadas, especialmente quando se trada da teoria Planar. Um fato notavelmente aceito é que nenhum modelo pode explicar de forma geral o uso de mana. O que nós vamos fazer então é descobrir e catalogar as capacidades normais de cada um de vocês. Essas capacidades incluem a quantidade total e o tipo de mana com maior afinidade em condições naturais. Esses dados irão para nosso banco de dados e é baseado neles que serão calculados seu tipo de treinamento e sua futura contribuição para o cristal.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Acordando

"Olá. Você deve estar se perguntando quem sou eu e porque eu estou te falando isso. Não interessa que eu sou. O que interessa é que você não sabe quem você é.

Você deve estar se perguntando: Quem sou eu? De onde eu sou? Porque acordei nessa cama? O que é esse lugar? Você provavelmente não lembra como chegou aqui ou o que você era antes desse momento, mas você sabe que há uma arma sobre o criado mudo. Você a sentiu quando acordou e passou a mão sobre os objetos um a um. Você sabia que deveria pegar o gravador e ouvir essa mensagem, mas não sabe porquê. E quando você deixar esse quarto você vai levar o gravador, e a arma, e também não sabe porquê. Que bom que eu estou aquí pra te guiar hein?"

A voz soava bastante sarcástica, mas o homem na cama levantou, colocou a arma e o gravador em cada um dos bolsos de uma jaqueta que estava numa cadeira ao lado da porta, e saiu.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Eu odeio comida congelada

Só demorou alguns dias até meu amigo ligar para confirmar o dia e o horário. Estavamos marcados para as sete da tarde de sexta feira, logo depois do estabelecimento fechar. O tatuador viajaria para alguma conferência e abriu uma exceção pra meu amigo antes de viajar, mas teria que ser muito rápido. Eu confesso que não gostei disso, não queria que fosse feita às pressas e acabasse ficando ruim.

Na terça feira meu irmão olhou meu braço - agora limpo e cicatrizado - e se alegrou de tudo estar bem. Ele disse que doaria o que sobrou dos remédios pra algum lugar que tratasse vítimas de incêndio ou coisa parecida. Ele sempre sabia como se livrar dessas coisas ajudando os outros. Ele aproveitava de garrafas plasticas vazias até barbeadores usados. Tudo tinha uma utilidade pra alguem que era pobre. O que não tinha ele mandava reciclar.

Na quarta feira, enquanto almoçavamos, notei que meu irmão espiou uma vez, uma única e rápida vez, o meu braço. Foi um olhar casual e que em uma situação normal nem seria notado, mas eu não deixei de perceber. Talvez ele estivesse apenas acostumado a verificar diariamente como andava a cicatrização e o tivesse feito por impulso.

Antes de dormir meu irmão foi ao meu quarto. Quando ele bateu eu tive certeza que ele descobrira sobre a tatuagem. Meu amigo havia ligado e deixado um recado dizendo onde ficava o lugar e meu irmão havia recebido. Ele certamente teria verificado o lugar antes para se certificar de que não era um trote e agora vinha reclamar e me dizer como a mamãe se sentiria. Como se ele soubesse.

Ele entrou, perguntou como eu estava e contou que viajaria no dia seguinte ao meio dia e só chegaria no domingo, talvez só na segunda feira. Havia comida congelada na geladeira e no freezer para mais de uma semana, só para garantir. A faxineira viria na sexta a tarde e eu deveria estar aqui para acompanhar toda a limpeza - como ele fazia, geralmente ajustando a posição de tudo que ela tocava em alguns centrimetros - para evitar problemas. Eu concordei com tudo a nos desejamos boa noite antes de ele sair. Nenhum sinal de ele ter descoberto o que eu planejava. Eu me senti muito aliviado.

Dormi pensando que teria que comer comida congelada por três dias. Eu odeio comida congelada.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Girando

No caminho para a casa de Stanley, Herbert só tomou mais três cervejas antes de perder o controle de si. Ele não era fraco para bebidas, e poderia ter bebido muito mais antes de sequer começar a ficar tonto, se estivesse em sua diversão masculina saudável. Mas ele não estava. Ele estava dirigindo com sono, no meio da madrugada e no calor insuportável, que pouco era amenizado pelo vidro agora aberto por onde ele arremessava as garrafas.

Depois de arremessar a terceira garrafa, que ele fez questão de mirar em um mendigo que dormia na calçada - errou por muito, mas deu gritos de comemoração mesmo assim -, Herbert abaixou para pegar a próxima. As cervejas estavam agora no chão do carro, pois tinham caído do banco com os movimentos bruscos que o carro fazia em cada curva. Ele puxou a quarta e bateu a tampa com força no volante. O pescoço da garrafa quebrou e ele virou o líquido na boca sem olhar. Pelo menos estava aberta e ele estava bebendo.

Enquanto bebia, Herbert sentiu um leve puxão para o lado direito. Ele pensou em desvirar a garrafa e olhar o que estava acontecendo, mas não conseguia. Olhou pelos lados da garrafa e viu que sua mão mexia devagar, e a rua à frente estava de lado. Na verdade ele quem estava de lado e o leve puxão que sentia era o carro capotando.

Herbert via o pescoço quebrado da garrafa se afastando do seu rosto e o líquido amarelo girando no ar fazendo formas brilhantes. O para-brisa trincava lentamente e Herbert acompanhava com os olhos os pedaços que se desvencilhavam. Ele não tocava em nada, mas sabia que estava indo lentamente na direção do teto. Ele olhou e viu o teto se aproximando, mas ainda tentava afastar a garrafa do rosto e sabia que agora ele levavia horas para mover o outro braço e proteger a cabeça. Tudo estava acontecendo muito rápido e ele era um mero expectador.

Ele ainda viu a garrafa tocar o teto e o pescoço quebrado se aproximar novamente do seu rosto. Primeiro sentiu o toque da cerveja, depois seu cheiro. Depois sentiu a ponta do vidro coçando seu rosto. Ele bateu a cabeça e não sentia mais nada enquanto a garrafa arrancava a pele do seu rosto e a D20 o jogava para a rua.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Reorganizando

Eu dei um nome pra o conto de Stanley: O Diário. Eu já sabia que o diário tinha muita importância na história, só não achava esse um nome bom. Aproveitei para organizar os marcadores. Agora os dois contos estão devidamente nomeados e separados em capítulos. Ficou um pouco poluído, mas foi o melhor que deu pra fazer usando o layout pré-construído do blogger.

domingo, 24 de agosto de 2008

Aceitação

Herbert suava muito. Partira da garagem sem abrir os vidros, e o ar dentro do carro estava quente e abafado. Seus olhos pesavam e sua cabeça balançava de sono enquanto segurava o volante com a mão esquerda e a cerveja, já quase pela metade, na direita.

Ele fez uma curva muito rápida pra esquerda e ao mesmo tempo bebeu todo o resto da cerveja. Por sorte não subiu na calçada e atingiu uma banca de revistas. Ele abriu a janela e jogou a garrafa para fora do carro, que ficou rodando ainda alguns segundos na rua enquanto a D20 acelerava pela escuridão.

Naquele calor, Herbert só pensava em uma coisa: comprar mais cerveja. Dessa vez não cometeria o mesmo erro, compraria várias garrafas, cinco ou seis, o suficiente para refrescar sua cabeça até chegar na casa de Stanley.

Ele avistou um posto de gasolina e parou para comprar a bebida. Parou muito bruscamente, assustando o bombeiro que dormia com a cabeça caída ao lado de um dos freezers. Ele pediu seis garrafas, que o bombeiro pegou, uma à uma, com uma expressão desconfiada, e foi passando pra ele pela janela.

-São vinte e sete reais.

No começo Herbert não sabia do que o homem estava falando, mas depois se lembrou que deveria pagar pelas cervejas. Procurou a carteira no bolso da calça mas não achou. Procurou no porta luvas, nada. Enquanto fingia que olhava a carteira entre as pernas, Herbert fez uma expressão que achou que o bombeiro conhecia: "Não tenho trocado, só tenho uma de cinquenta."

-Faz o seguinte, me manda mais cinco e faz cinquenta que estou com pressa.

O bombeiro se virou para pegar mais garrafas e Herbert arrancou. Em dois segundos ele já saía do posto, deixando o bombeiro gritando atrás com duas cervejas nas mãos. Ele planejava voltar e pagar o homem outra hora. Só não sabia que não teria essa chance. Ou até sabia.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

De volta ao terror

Eu terminei de ler O Processo. Não sei quanto tempo levei mas sei que foi muito, deve constar aqui no blog quando comecei, talvez. Bastante cansativo (!!), mas até interessante. Ajuda a abrir a mente e ter idéias.

Comecei Lisey's History do Stephen King. Acompanhado desse livro eu quero voltar a escrever mais, considerando que foi por causa do próprio King que eu comecei a gostar desse mundo todo. Espero também recuperar parte do ar de horror que eu botava nos textos antes, e assim continuar escrevendo a história de Stanley e Manu. Isso não deve ser muito difícil, porque mal comecei o primeiro capítulo e Lisey já está sendo atormentada pelo marido morto. Eu adoro terror XD

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Tremedeira

Nos dois dias seguintes eu andei com camisas de manga comprida. Eu não precisava realmente esconder o contorno que meu amigo fizera, mas eu tinha medo do que meu irmão poderia dizer. Não sabia como ele reagiria à idéia de fazer tatuagens, ainda mais no formato das queimaduras.

No terceiro dia os contornos já haviam quase saído mas ainda haviam manchas pretas em alguns lugares. Eu esfregava muito com sabão enquanto banhava mas a tinta era um pouco difícil de tirar. Isso me fez pensar o quanto seria estranho ter aqueles desenhos pra sempre. Eu poderia lavar o quanto quisesse e eles estariam sempre ali. Eu achei que somente uma outra queimadura - mais profunda - os faria sumir, e sorri da ironia que isso seria. Eu nem sabia se isso era possível de acontecer, não entendia bem como funcionavam as tatuagens.

No mesmo dia, antes de eu ir dormir, meu irmão entrou no meu quarto e disse que precisávamos conversar. Ele estava muito nervoso, e mesmo tentando falar devagar, parecia que sua voz tremia. Percebi depois que ele estava com raiva e que seu corpo todo tremia. Não era típico dele ficar assim.

-Encontrei uma camisa tua, entre as que vão pra lavanderia amanhã, com manchas pretas na parte interna do braço esquerdo.

-E o que é que tem?

-O que é que tem? Eram manchas de tinta! Eu não sei o que tu anda querendo fazer, mas a tinta deve atrapalhar a cicatrização. Tu vai acabar com uma mancha permanente horrível nesse braço.

-Não vai atrapalhar em nada, as queimaduras já sararam.

-Então esses dois dias tu tem andado de manga comprida pra esconder a tinta de mim? Deixa eu ver o que tu tá fazendo, anda!

Eu mostrei meu braço sob a manga da camisa. Não dava pra reconhecer os contornos como antes, eles já haviam perdido o sentido. Meu irmão continuou, ainda mais bravo. Eu sentia sua mão tremer quando tocava meu braço.

-Pra que é mesmo essa tinta? Tu tá tentando reproduzir o formato da queimadura ?

Foi a primeira vez que ele mencionou o formato da queimadura. Até aquela hora eu achava que ele não havia percebido. Se ele percebera antes, porque nunca falou nada?

Eu confirmei que estava querendo reproduzir o formato dela. Eu disse que a achava bonita e que poderia dar uma tatuagem interessante.

Meu irmão pareceu se acalmar quando eu disse aquilo. Ele sentou na minha cama ao meu lado e começou um de seus longos discursos. Falou sobre como tatuagens eram ruins, como seria difícil arranjar emprego depois, como eu poderia me arrepender, o que a mamãe diria se estivesse viva - ele sempre tocava nesse ponto - e mais algumas coisas que eu já estava sonolento o suficiente para não lembrar.

Quando ele apertou minha mão antes de sair eu senti que ele ainda tremia muito, talvez mais que antes. Mesmo calmo ele continuava com aquela tremedeira, como se estivesse com frio, com medo, ou talvez doente. Eu não falei nada, entretanto, porque meu irmão sabia se cuidar e eu o admirava por isso.

domingo, 27 de julho de 2008

Contornos

No mesmo dia eu liguei pra um amigo da faculdade que tinha feito uma tatuagem recentemente. Ele tinha experiência com isso e com certeza saberia ajudar, considerando que a mais recente era sua oitava tatuagem. Ele atendeu sonolento e reclamou que eu estava ligando muito cedo. Eram 2:15 da tarde.

Quando eu falei que estava pensando em fazer uma tatuagem ele pareceu finalmente estar acordando. Perguntou porque eu queria fazer e se eu havia pensado naquilo realmente bem, porque tatuagem é definitivo e eu não iria querer me arrepender depois e ficar com uma mancha desagradável pendurada no meu corpo, como aconteceu com a primeira que ele fez.

Eu contei do meu sonho pela primeira vez. Não sei porque achei que ele não teria problemas em ouvir, e realmente não teve. Ele sugeriu que ele mesmo fizesse os contornos da chama na minha pele com uma tinta não definitiva, para eu ter certeza que ia gostar. Só então ele me levaria pra fazer a definitiva com um profissional que ele confiava. Eu concordei.

No dia seguinte à tarde eu fui à casa dele. No começo ele não identificou as queimaduras, mas assim que as viu pelo primeira vez pareceu que elas haviam ficado extremamente nítidas pra ele. Ele fez os contornos muito mais rápido do que eu achei que seria, mas parou na parte de baixo onde ele disse haver uma chama incompleta. Eu expliquei que o desenho não estava completo e que eu queria que fosse exatamente daquele jeito até que eu descobrisse como seria a parte de baixo.

Quando cheguei em casa e olhei os contornos no espelho do meu quarto eu percebí o quanto haviam ficado identicos aos do sonho. Decidi que faria a tatuagem de verdade e liguei pra meu amigo pedindo pra ele marcar. Ele retornou a ligação dez minutos depois dizendo que nós poderíamos ir juntos na semana seguinte e que o preço ficaria bem melhor porque ele era amigo do tatuador.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Sumindo

Quando voltamos pra casa eu olhei meu braço esquerdo no espelho. O formato das queimaduras eram exatamente os mesmos do sonho, eu me lembrava claramente. Havia um diferença só: no sonho elas eram pretas, como tatuagens de verdade.

Agora que eu sabia que elas iam sumir, eu comecei a gostar delas. Se ficasse ao menos uma marquinha eu poderia me gabar de ter uma cicatriz muito massa de um acidente estranho onde minha própria cama subitamente pega fogo. Mas quem acreditaria no sonho? Todos achariam que eu tinha inventado aquilo e feito as queimaduras eu mesmo. Talvez fosse exatamente isso que o médico tivesse pensado.

Alguns dias se passaram até que as marcas diminuiram quase ao ponto de sumirem. Meu irmão tinha estado mais preocupado que o normal durante aquele tempo, insistindo todos os dias em como eu precisava tomar cuidado com o sol e com o atrito e sempre fazia um discurso de cuidados com queimaduras que ele havia decorado do médico. Agora, porém, parecia razoavelmente mais calmo. Achei que aquele acidente o incomodava anormalmente.

Um dia eu acordei e tive a impressão de que as marcas não estavam mais lá. Me deu uma sensação de falta, uma saudade, pois eu havia me acostumado com elas e achava que elas faziam parte de mim. Logo depois, quando abrí a janela e a luz entrou, percebí que elas ainda estavam lá, só que quase invisíveis. Decidí que as queria de volta e eu sabia exatamente como conseguí-las.

domingo, 20 de julho de 2008

Meu irmão - parte 2

O médico nos disse que havia sido apenas uma queimadura superficial. Havia sido uma área grande mas provavelmente não ficariam cicatrizes e os cuidados que eu devia ter eram bem básicos.

Depois de fazer todas as verificações, dar todas as explicações necessárias e responder a todas as perguntas preocupadas do meu irmão, ele deu uma pausa. Quando voltou a falar pareceu mais cuidadoso, procurando as palavras com cuidado, receando tocar em algum assunto delicado.

-Com quem vocês moram?

Meu irmão respondeu que morávamos só nós dois. Percebendo a intenção do médico ele explicou também que nossa mãe havia morrido anos antes e nosso pai havia sumido desde então. Nós só tinhamos um ao outro mas vivíamos bem e não tinhamos muitos problemas com isso.

O médico ainda pareceu desconfiado e eu notei que quando ele olhou pela primeira vez a queimadura ele percebera o padrão no desenho, como se ela tivesse sido feita de propósito.

-Como foi que aconteceu esse acidente?

Meu irmão explicou o que ele presenciou e aí eu ouví a parte da história que eu não sabia. Ele disse que eu gemia durante a noite, tão alto que ele pode ouvir do quarto dele. Quando ele foi verificar, encontrou o lençol pegando fogo ao meu lado. Ele teve de gritar meu nome várias vezes antes que eu acordasse.

Eu não sei se o médico acreditou em tudo aquilo - ouvir a história em voz alta a fez parecer bem inventada, até mesmo pra mim - mas ele continuou com aquelas perguntas e meu irmão sempre tinha uma explicação pra dar. No final ele recomendou um psicólogo e algum tipo de terapia familiar, sendo ouvido atenciosamente pelo meu irmão, que tomou nota do nome, endereço, telefone e tudo o mais.

sábado, 19 de julho de 2008

Meu irmão - parte 1

Acordei. Eu estava sentado na cama e sentia uma ardencia muito forte no meu braço esquerdo. Meu irmão estava ao lado da cama gritando meu nome e puxando o lençol que pegava fogo.

O lençou continuou pegando fogo ao lado da cama e nós ficamos olhando ansiosamente pra ele, como se pudesse a qualquer momento explodir e queimar todo o quarto, até que finalmente a chama apagou.

Meu irmão perguntou como eu estava e sentou na cama pra olhar meu braço queimado. Se ele percebeu o formato peculiar da queimadura, que era excessivamente bem delineada para ter sido feita por qualquer fogo, não disse nada.

Nos momentos seguintes ele me levou na emergêngia para olharem meu braço. Ele era sempre muito cuidadoso e queria que soubessemos exatamente com o que teríamos que lidar, que pomada eu precisaria usar e os riscos de infecção.

No carro, discutimos quais poderiam ter sido as causas daquele pequeno incendio. Meu irmão concluiu que a única possibilidade teria sido um curto circuito na tomada do despertador, que ficava exatamente do lado esquerdo da cama. Ele verificaria a tomada quando chegássemos em casa. Eu posso adiantar que ele encontrou a tomada em perfeito estado, e não encontrou motivos para o fogo nem mesmo depois de revirar todo o quarto.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Um velho na floresta

Eu caminhava por uma floresta desconhecida, rodeado por árvores muito grandes e altas, tão altas e fechadas que não se via o céu. Podia ser dia ou noite, eu não saberia dizer.

Avistei um homem e uma cadeira e então sentí que havia encontrado o que procurava. Corri até ele e aceitei seu convite para sentar. Ele estava de cabeça baixa, com os cabelos brancos fazendo uma sombra escura sobre os olhos. Ele encostou a agulha no meu ombro esquerdo e começou a desenhar.

Cada vez que ele encostava a agulha eu sentia queimar. Era uma dor forte, mas agradável. Quando ele já havia desenhado até o cotovelo, eu comecei a perceber o desenho. Era algum tipo de chama tribal, como se vê comumente em tatuagens, mas de onde ela saía eu não conseguí ver, pois o desenho não estava terminado.

Naquele momento eu ouví um sussurro. Alguém chamava meu nome atrás de mim. Quando tentei virar para olhar o velho me segurou. Ainda de cabeça baixa com a sombra nos olhos, ele agarrou meu braço esquerdo, mas não parecia ter força alguma. Eu virei para trás e ví uma pequena chama queimando perto da cadeira.

A chama crescia e eu sentia o calor nas minhas costas. Assustado, tentei levantar rapidamente da cadeira e...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Darkness

Ele entrou em casa e fechou a porta devagar, fechando cuidadosamente e sem pressa cada fechadura. Assim que achou que estava a salvo do mundo lá fora, pôs a chave sobre a mesinha ao lado da entrada, encostou as costas na porta e deixou escorregar até sentar no chão. Ele ficou curvado de cabeça baixa durante muito tempo, mas não chorou.

Ele levantou depois de algum tempo e se acomodou numa cadeira suja, na mesa de centro. Esse quarto havia lhe servido como lar durante muito tempo. Ele dormia ao lado da mesa, separado do chão apenas por um lençol sujo e uma toalha que usava para apoiar a cabeça. Do outro lado havia uma pia, agora coberta de sujeira e mofo. Ao lado dela estava uma geladeira que, embora tivesse cor, na penumbra que estava parecia apenas um retângulo cinza. Ela não funcionava desde que a energia fora cortada fazia três ou quatro meses. Antes disso porém ela já não era mais aberta.

Sobre a mesa havia um papel e uma caneta que ele agora usava para escrever. Ele escreveu as únicas palavras que, em toda a sua vida, o fizeram chorar. Foi a única vez que ele chorou e a última vez que escreveu, exceto por uma última palavra, anos depois...

"My heart, my love
One word, and gone
To stay, i will
Believe, and pray
To see, to feel
To hear, to be and gone
How can i get close to you?
How can i the foolish one?

Beauty can't be seen but only kissed
I have so much love to give
But where are you and how to be reached?

Can i talk, can i speak?
And can i lay my head on you?
Can i choose and can i say
I love you!

Darkness surrounding me
My head hangs low
Your arms are far
Your breath takes me
Besides i am in love
I'm loving you but you
So far from me i'm holding out
Your words your face your breath
Your touch your heart should cover me
But all you do is watching me
So i dismiss the grace of you
And far beyond the darkness grows
Which leads me back to all my roots
The longing and the pain
In darkness and disgrace
The longing and the pain
In darkness and disgrace"

sábado, 28 de junho de 2008

Fantasmas

Eu não consigo contar quantos textos eu comecei sabendo exatamente o que eu queria escrever e não saiu sequer uma frase antes de eu abondoná-lo e ir fazer outra coisa. Subitamente eu havia esquecido tudo que eu queria botar, ou já não sabia como dizer o que eu estava pensando, ou simplesmente eu começava a questionar o que eu havia pensado antes. Eu li em um blog de uma guria que o texto tem que sair na hora, sem rodeios, senão perde a validade. Coisas que você guarda pra escrever depois simplesmente apodrecem e perdem toda avida que eles tem quando são frescos, recém saídos da fábrica.

Pensando nisso eu me toquei porque eu escrevo no meu blog. Eu precisava escrever porque os textos que morrem são como fantasmas, que voltam pra te assombrar quando você menos espera. São como ex-namoradas que atormentam quando você procura uma nova namorada. A texto pode ser totalmente novo e diferente, mas as lembranças do antigo continuam aparecendo nas entrelinhas.

Algumas vezes você escreve e o texto é completamente ruim, totalmente impossível de ser lido. Mas isso é muito bom. É bom saber que aquela coisa saiu de você, como catarro cuspido da garganta inflamada. Algumas coisas simplesmente precisam ir embora pra dar espaço pra outras. E a vida é assim.

Quando o texto bom, entretanto, cada linha que sai parece que se mistura com o que você é. Ele não está sendo cuspido e sim manipulado em sua própria cabeça, procurando o exato encaixe onde ele vai ficar armazenado na sua personalidade. Esse texto pode ser abandonado porque já cumpriu sua função, ou pode ser guardado e relido quantas vezes a gente quiser, mas nunca vai incomodar os textos futuros, vai apenas nos dar orgulho.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Vi

Sabe como é que tem dias que você fica louco pra ir dormir logo pra chegar amanha, porque algo está pra acontecer, ou porque alguém vai chegar, ou vai sair o resultado de alguma prova, concurso, seja lá o que for? Dias que você sabe que vai viver mais intensamente, porque vai sentir uma alegria a mais, daquelas que mesmo sabendo que vai acontecer, quando ela chega é sempre fenomenal? É o velho pensamento: "Chega logo amanhã, não aguento mais esperar!".

Todos sentimos algo assim quando somos crianças penetras ou adolescentes ansiosos. Mas e se você sente isso sem razão aparente? E se nada vai acontecer e você dorme cedo porque amanha você simplesmente vai viver e isso já é razão pra ser feliz?

Eu não sei o que está acontecendo comigo mas eu venho me encontrando ultimamente, sabe como é? Andando por aí e dando de cara comigo mesmo? "Olha só, esse sou eu. Que legal, eu queria ser assim." Está sendo estranho e interessante saber que eu tenho poder de fazer o que eu quizer com minha mente. Finalmente estou aprendendo a controlar essa coisa e posso experimentar brincar de ser eu mesmo.

Tem outras coisas que eu queria por aqui agora sabe, mas não vou por. Sabe porquê? Porque eu posso! Eu posso guardar o que estou pensando agora só pra mim e ai eu terei um tijolo que, ao invés de ser arremessado e esquecido no blog, vai ser incorporado na minha construção.

Esse vai ser meu primeiro texto sem milhões de revisões, tirado da lata sabe? da boca da garrafa como se diz com camisas mal passadas. Eu estou orgulhoso de mim mesmo XD

domingo, 22 de junho de 2008

Frio silêncio - dentro

Como podia não ter se lembrado de nada até aquela hora? Quando foi que esqueceu o pensamento que tivera quando o homem o agarrou? Ele não sabia. Mas ele sabia que aquele homem que o segurou pelo pulso não era Stanley. Não podia ser. Eles conversaram depois e Herbert sentia que o conhecia um pouco, suficiente para saber que os olhos que vira naquele momento não eram os dele, mas os de outra pessoa. Uma pessoa completamente insana.

Mas porque ele pensara aquilo? Claro que era uma situação não convencional, encontrar um homem largado no meio da rua, tendo pesadelos e falando dormindo, mas não havia porque ter ficado com tanto medo. Herbert se lembrava bem daquele momento ter sido o único em que ele realmente teve medo durante todo o dia. Nem mesmo quando o carro desceu estranhamente a rua ele ficou tão amedrontado.

Aquela pergunta ficou girando por mais algum tempo em sua cabeça, que ele calculou terem sido no mínimo uns dez minutos. Durante esse tempo ele pensou como havia sido estranho o dia anterior. Lembrou da D20 descendo a rua sem ninguem no volante e Stanley jogado no banco. Lembrou do livro que ele abraçava depois e não se lembrava de tê-lo visto antes. E agora esse frio absurdo entrando pela janela...

Herbert ouviu um som de garrafa quebrando que o tirou do transe. Ele pegou as chaves sobre a mesa de trabalho, uma cerveja na geladeira e arrancou da garagem, sabendo exatamente onde ia.

Precisava de respostas.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Cinza

Anteontem eu terminei de ler O Retrato de Dorian Gray. Eu havia começado a ler por que é uma história antiga e famosa, mas no decorrer da leitura eu quase me decepcionei completamente com o livro. Apesar de Lord Henry ser muitas vezes genial, ele fica inacabado, como quase todos os outros personagens. Eu sei que o livro defende a arte-pela-arte, mas fica parecendo que a única coisa que importa pro Oscar Wilde é, na verdade, a beleza do protagonista.

Deixando de lado isso e também o quanto é chata a retórica do negócio, o livro tem muitas coisas legais pra se pensar, especialmente quando se sabe captar os detalhes certos.

Eu poderia justificar que não venho escrevendo nesse último mês exatamente porque a leitura do livro não me agradou muito (e foi o que eu pensei por algum tempo), mas eu cometeria o mesmo erro que Dorian. Não é culpa do livro e é bom pra mim saber disso. Eu estou ocupado, mas mesmo assim poderia continuar escrevendo, e não o fiz. Tá, talvez seja parte culpa do livro.

Hoje vou começar a ler O Processo e junto com esse começo espero voltar a escrever. Como é estranho como a gente sente falta das coisas que menos espera, ?

domingo, 18 de maio de 2008

Extra, extra

Eu entendo que são as pequenas coisas, na maioria das vezes imperceptíveis, que fazem toda a diferença. São essas coisas que aparecem "naquele pequeno extra" de extraordinário. São coisas que ninguém deveria notar, e provavelmente não o fazem, mas que de alguma forma influenciam como todos pensamos e vivemos, e principalmente, influenciam o que amamos ou desprezamos.

Eu não gosto de escrever. Pode parecer muito estranho, mas é verdade. Pensar com palavras é muito difícil pra mim - já foi pior, hoje em dia é um pouco mais fácil - mas eu gosto de tudo o mais que acontece comigo quando eu escrevo. São coisas pequenas, malditas coisas pequenas e imperceptíveis, que fazem toda a diferença. Eu gosto da história, gosto de sentir o que está acontecendo, gosto de como os personagens são imprevisíveis mesmo pra mim que estou escrevendo, e no geral, gosto dos detalhes indescritíveis. Não me peçam pra dizer o que eles são, você sabe que é impossível.

Eu resolvi escrever sobre isso porque alguém me perguntou no msn, mas como eu fora lá fora pedir opinião para o Luis sobre meu texto de localização de pontos em arranjos bidimensionais, a pessoa saiu e eu não tive chance de responder.

Esses detalhes estão em todos os lugares. Eu usei o exemplo de escrever porque gosto de meta-linguagem, mas minha intenção era dizer que eu os sinto e sei que você também os sente, de alguma forma diferente, mas sente. Espero que você saiba o que eu quero dizer, ou pelo menos, sinta o que eu quero dizer.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Frio silêncio - fora

A sala estava fria e o vento entrava pela janela em assobios congelantes. Pelo chão da sala pedaços não terminados de esculturas de papel tremiam levemente, como folhas de outono. Herbert atravessou por entre os papéis, observando tristemente a bagunça que teria que arrumar depois. Pagaria o preço por deixar a janela aberta. Ele sabia disso como sabia que havia cerveja no congelador.

Ele finalmente chegou na cozinha e tirou uma cerveja da geladeira. Tomou um grande gole e tentou relaxar o corpo, mas não conseguiu fazê-lo. Sentou na mesa suja, onde quase nunca comia e ficou observando a cozinha como se procurasse alguma coisa que não estava lá. Havia algo que o incomodava. Ele pensou na janela da sala e percebeu que primeiro fora buscar a cerveja e sequer pensou em fechá-la antes. Devia ser esse o problema.

Voltou pra sala e viu que a janela continuava aberta. Tentou dar um sorriso sarcástico que saiu mais como um arroto e partiu na intenção de fechá-la. O vento frio que entrava parecia que carregava lâminas que cortavam o seu corpo. Ele atravessou a sala caminhando como um esquimó no gelo, e com dificuldade conseguiu alcançar o outro lado. Não se lembrava de o vento estar tão forte quando passara antes. Não se lembrava de sequer ter visto um vento assim em todo o tempo que morara naquela casa.

Assim que ele fechou a janela o vento parou de assobiar e a sala foi tomada pelo silêncio. Era um silêncio tão grande que Herbert pensou ouvir seu próprio coração bater. Antes que ele pudesse dar ao menos um passo de volta, o silêncio o invadiu, como às vezes ele tem mania de fazer, fazendo tudo ao redor parecer parado e morto. Herbert deixou a cerveja cair e ela quebrou fazendo um estalo molhado, mas ele não ouvia mais nada.

Meu Deus não me deixe morrer desse jeito. Desse jeito não.

sábado, 26 de abril de 2008

Classificações tradicionais da magia

Classificação de Allen: Allen propôs a primeira classificação, baseada nos quatro elementos que, na época, achava-se que compunham o universo: Fogo, Água, Terra e Ar. O próprio Allen modificou essa teoria posteriormente e adicionou o elemento Éter, que representaria o intangível, imaginário ou mesmo o maligno.

Classificação Elemental: Essa classificação é uma extensão da classificação de Allen, proposta por várias estudiosos em paralelo, na forma de elementos ou cores, que adiciona ou modifica elementos que faltavam ou eram incompletos. Os elementos são Água (azul), Fogo (vermelho), Ar (cinza), Terra (marrom), Luz ou Eletricidade (amarelo), Vida (verde), Bom (branco), Mal (preto) e Éter (transparente).

Classificação das Cores: Essa classificação coloca os tipos de magias numa reta que vai do branco até o preto, em progressão. Dessa forma, ela não força nomes para os elementos, que seriam infinitos. O vermelho por exemplo, pode ser mais fraco ou mais forte, requerendo assim uma quantidade diferente de mana para cada tipo de vermelho. Essa classificação é linear e unidimensional.

Acordando

Depois de deixar Stanley em casa Herbert não pensou mais nenhuma vez sobre o que havia acontecido. Almoçou no Bart's, um restaurante barato onde sempre comia depois de voltar do trabalho, mas não notou que mal tocara na comida. Quando chegou em casa, perto das três horas, abriu uma cerveja e retomou o trabalho em um modelo de um AT-AT de papel que trabalhava fazia alguns dias. Ficou hipnotizado naquele trabalho até o cair da noite, parando de vez em quando apenas pra pegar outra cerveja. Ele deitou cedo e dormiu rápido de tão cansado que estava.

Herbert tinha uma vida calma e pacata, distribuindo pães e fazendo esculturas de papel, por isso havia muito tempo que não se estressava. O senhor Pedro, dono da padaria, talvez fosse sua maior preocupação, sempre reclamando de alguma coisa, mas Herbert sequer conseguia entender o sotaque português do homem. Parecia que ele falava uma língua completamente diferente.

Naquele dia, entretanto, Herbert acordou durante a noite. Assim que tomou consciência de que estava acordado, ele imaginou se já não era hora de sair para entregar pães. Sempre acordava dois minutos antes do despertador tocar. Olhou no relógio ao lado da cama e eram 1:15 da manhã.

Ele se virou pra tentar voltar a dormir mas não demorou muito para perceber que, embora estivesse cansado e com os olhos pesados, não conseguiria dormir. Levantou e foi na geladeira pegar uma cerveja.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A mulher da minha vida - parte 3

Quando terminamos de comer, Manú levantou e contornou a mesinha redonda na minha direção. Ela sentou no meu colo e aquele short fino de lycra e meu calção não impediram de forma nenhuma de eu sentir todo seu contorno. Ela não estava mais suada dos exercícios, mas seu corpo ainda exalava um leve calor que me fez sentir muito bem de tê-la no meu colo numa fria manhã de domingo.

-Acho que hoje vai chover, talvez fique mais frio. - Eu falei enquanto ela começava a se insinuar sobre minhas pernas pra me fazer entender o óbvio. Ela tinha esse jeito de me atacar nas situações mais desprevenidas e eu nunca parecia me acostumar. Na verdade ser pego despreparado é muito mais emocionante e talvez no fundo eu soubesse sempre o que ela queria.

-É? - ela perguntou praticamente ignorando minha afirmação e completou com uma longa lambida no meu ouvido. Aquilo foi muito bom e me excitou muito, mas ao mesmo tempo me fez lembrar do nosso cachorro.

-Precisamos comprar a comida do Manthys hoje meu amor. - Ela olhou pra mim com uma expressão infantilmente enfurecida.

- Já te disse pra não chamar ele assim Stanley, o nome dele é pra ser Josh. Para de chamar senão vai acostumar errado.

-Não vou colocar um nome de viadinho de Boy Band no meu cachorro Manú. Manthys é bem mais legal, tipo o...

-Tipo do blah blah blah grego. Já conheço essa história. - Ela levantou das minhas pernas e se dirigiu rebolante em direção à escada. - Por causa disso pode guardar esse fogo pra noite, seu detetivezinho nerd.

Ela falou aquilo com um tom de desprezo e graça misturados que só ela sabia fazer, ao mesmo tempo mostrando um sorriso sexy e um caminhado instigante. Subiu a escada correndo e eu fui atrás e aquilo que ela ameaçou deixar pra noite não precisou esperar nem mais cinco minutos.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A mulher da minha vida - parte 2

Depois do banho eu vesti uma bermuda e uma camisa de mangas compridas e desci para a sala no andar de baixo. Não estava muito frio, mas as vezes dá uma preguiça de resistir ao frio, por menor que ele seja, e eu estava nesse dia, por isso desci protegido da cintura pra cima. Pra mim domingo sempre foi o dia mundial da preguiça justificada.

Eu ainda estava na metade da escada quando Manú avistou minhas pernas. Às vezes parecia que ela só podia ficar espreitando pra pegar o momento exato que eu descia, porque quase sempre ela falava a mesma frase, na mesma hora, da mesma forma infantil e carinhosa:

-Taaaanleeeey!! Bom diaaaaa!!

Quanto terminei de descer a encontrei sentada na bicicleta ergométrica, mas sem fazer exercícios. Ela usava um daqueles shorts de lycra apertados de musculação e uma camiseta justa que juntos davam o valor que o corpo dela merecia. Ela desceu do aparelho e caminhou até a cozinha, sempre mantendo em mim um olhar sexy e enigmático. Eu também caminhei até a cozinha pelo meu próprio lado da sala, retribuindo o olhar com o que eu achei ser, pelo reflexo no espelho vertical que tínhamos perto do armário da sala, uma leve expressão de lobo faminto.

Tomei um leite quente com café enquanto a observava preparar um suco. Manú sempre tivera bochechas fofinhas - um pouco grandinhas mas nunca exageradas -, e hoje elas estavam excepcionalmente coloridas com um vermelho forte por causa dos exercícios que acabara de fazer.

Ela sentou na cadeira em frente a mim e nós conversamos durante um longo tempo enquanto comíamos. Eram oito anos de casamento que nunca haviam mudado.

domingo, 13 de abril de 2008

Magia perpétua e mana

Por muitos anos houve uma busca pela Magia Perpétua. Essa forma de magia, como foi descrita por Allen e seus discípulos, é uma magia que é capaz de executar uma tarefa por um tempo infinito, independente de interferências externas. Um exemplo clássico é a roda d'água: uma roda dentada que pode ser colocada em um fluxo de água para gerar energia. Com a magia perpétua seria possível substituir a água por um "encantamento" que fizesse a roda girar, construindo-se assim uma fonte eterna de energia.

Até hoje esse tipo de magia não pode ser executado. O que se observa é que existe uma Regra de Conservação de Energia, fazendo com que uma roda do tipo descrito acima pare de rodar depois de algum tempo. A magia na roda se esgota a menos que seja reposta por um ser vivo.

A energia que se utiliza para fazer magia foi chamada de mana e, sob muitos aspectos, sua natureza ainda é desconhecida. A teoria mais aceita diz que ela vem da mente daquele que faz a magia e seu uso excessivo causa os "efeitos de esgotamento", que podem incluir cansaço físico e emocional, perturbações nos sentidos, convulsões, ataques epilépticos, danos cerebrais ou até mesmo morte.

É razoável então acreditar que a execução de magias consiste meramente na conversão da mana em outras formas de energia, matéria ou deslocamentos planares. Tais conversões estão sujeitas a regras ainda não completamente conhecidas, mas veremos algumas classificações importantes que são bastante aproximadas e aplicáveis na prática.

sábado, 5 de abril de 2008

A mulher da minha vida - parte 1

Eu acordei com os primeiros raios do sol da manhã no meu rosto. Manú ainda dormia do meu lado, curvada como só ela conseguia ficar durante o sono, mas linda mesmo assim. Seus longos cabelos pretos estavam espalhados na cama, abertos como um grande leque. Ela usava uma camisa que adorava, com o desenho de um urso e um sorvete, e que quase sempre usava pra dormir. Além da camisa ela só usava uma breve calcinha azul claro. Eu adorava vê-la dormir daquele jeito.

Derrepente ela se mecheu. Fez alguns movimentos lentos com as pernas e de alguma forma implícita ela soube que eu a observava. Sem ao menos abrir os olhos ela girou para o meu lado, aninhando o rosto no meu pescoço e colocando uma perna sobre meu corpo. Eu lhe dei um beijo na nuca, entre os cabelos macios e cheirosos, e desci a mão acariciando sua perna. Dormimos assim por mais algumas horas, eu nunca saberia dizer exatamente por quanto tempo.

Eu tenho uma vaga lembrança de receber um beijo no pescoço e depois sentir o peso de Manú aliviar. Lembro de vê-la passar uma ou duas vezes perto da cama, mas tudo isso são apenas flashes que poderiam ser facilmente um sonho. Acordei algum tempo depois para não encontrá-la mais do meu lado, como de costume. Ela era uma mulher muito ativa e provavelmente já teria feito café da manha e exercícios matinais. Ela costumava dizer que eu perdia muito tempo dormindo.

Levantei e me dirigí ao banheiro para tomar um banho quente, encontrando a trilha de Manú por onde ia. Uma toalha semi-molhada pendurada no cabide ao lado da porta do banheiro, próxima a uma camisa que provavelmente seria reutilizada na noite do outro dia e um rostinho feliz desenhado no vapor do espelho do banheiro acompanhado da mensagem "Love You". Dei um sorriso involuntário e feliz, como fazia todos os dias ao acordar de manhã. Era inevitável, e eu gostava muito disso.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Andando entre gárgulas do passado

Quando entrei no escritório ví que ele estava completamente tomado pelo mofo. Várias pilhas de papeis se amotoavam em um canto e exalavam um cheiro velho e azedo. A escrivaninha continuava de costas para a janela, exatamente como eu me lembrava.

Andei até ela, passando pelo armário onde antes eu mantivera minha querida coleção de gárgulas. Algumas estavam caídas, outras quebradas, mas a maioria continuava estranhamente parada, como se fossem criaturas vivas presas em contornos de pedra, observando tudo que acontece ao redor e prestes a sair voando.

Coloquei o diário sobre a mesa e me sentei. A cadeira rangeu alto, incomodada com minha presença. Após contemplar a capa preta e o símbolo dourado desenhado nela, abrí na primeira página e comecei a ler. Enquanto eu lia, as lembranças voltavam à mim como se eu às tivesse vivendo mais uma vez, tão real quanto foram antes. Até mais reais.

domingo, 30 de março de 2008

"Time"

Apesar do calor da tarde, Stanley dormiu bem e só acordou pela primeira vez às duas da manhã. Dessa vez não houve nenhum sonho. Ele gastou a última hora antes de se levantar naquele estado engraçado que se tem quando acorda, quando não se sabe se está acordado ou dormindo. Levantou por volta das três da manhã, completamente acordado e descansado.

Depois de escovar os dentes e fazer um curativo nos ferimentos da perna - que já estava na verdade doendo bem menos - ele ligou o som da sala em Shine on You Crazy Diamond do Pink Floyd, e foi para a cozinha preparar comida. Comeu um sanduiche de pão com requeijão e mortadela gelada, dando lentas voltas pela sala e cozinha.

A música já estava quase no final quando ele decidiu entrar. A porta ficava na sala, próximo a uma estante com copos que ele nunca usava, do lado oposto do som e do quarto. Ele caminhou até ela e se agachou para pegar o livro de capa preta que estava no chão. Não se lembrava de tê-lo deixado alí. Na verdade não lembrava sequer de como havia entrado em casa na noite anterior.

Parou antes de entrar, ponderando como aquele lugar e aquel diário afetariam sua sanidade depois de tantos anos. Decidiu que era a hora de entrar. Nem cedo demais nem tarde demais, aquela era a hora e ele se achava sortudo em ter conseguido encontrá-la a tempo. Como que pra confirmar seu pensamento, ele ouviu o som de vários relógios tocando. Era Time que começava a tocar no som do outro lado. Quando ele abriu a pesada porta de madeira e finalmente entrou, o som dos relógios parou, mas a porta já havia batido e ele não chegou a ouvir mais nada da música, que ficou tocando sozinha, pra uma sala vazia e um prato com restos de pão e queijo gelado.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Descanso

Continuaram subindo aquela rua engraçada rodeados das pessoas que circulavam como se ignorassem a presença do carro entre elas. Desta vez, porém, eles conversavam como velhos conhecidos de infância. Falavam sobre música e cinema, apesar de que nenhum dos dois saberia dizer como saíram do "obrigado por parar o carro" para "tem um filme aí com a trilha sonora feita toda pelo U2".

Alguns minutos depois eles já haviam parado em pelo menos mais três padarias e até mesmo em um mercadinho que também comprava pães regularmente. Encontraram Rose na porta do mercadinho, sentada numa cadeira de balanço, perdida em pensamentos. Era uma mulher que aparentava uns dezenove anos, muito bonita, mas burra. Burra como um saco de torradas.

Um certo momento Herbert parou o carro para falar com um homem velho, que usava um short jeans desgastado, uma camisa verde escura e um chapéu que aparentemente já havia passado da hora de ir para o lixo. Talvez o próprio velho houvesse passado. Stanley ainda os ouviu conversando algo sobre um jardim ou uma fornalha, mas não prestou atenção de verdade.

Ignorando o fato de que a D20 quase atropela dois garotos que jogavam bola no meio da rua (Herbert na verdade olhava para o que parecia ser a mãe deles sentada na esquina), a viagem inteira foi calma. Stanley comeu dois pães e bebeu do café que Herbert carregava sempre durante suas voltas matinais. Chegaram na casa de Stanley por volta do meio dia, e se despediram como dois grandes amigos que sabem que vão se encontrar no outro dia.

Stanley entrou em casa lentamente, tomando cuidado com a perna machucada. A casa estava escura - era muito fechada e mesmo o sol do meio dia não conseguia iluminar muito - e ele não se deu ao trabalho de ligar as luzes. Ao chegar na cama caiu imediatamente no sono.

terça-feira, 18 de março de 2008

Para trás

Houve um som de pneus derrapando e Stanley viu a porta do motorista abrir e Herbert olhá-lo com uma expressão de alívio. Ele parecia suado como se tivesse corrido pelo menos uns dois quilômetros sem parar.

-Cara, tá tudo bem ae? - Ele perguntou em tom preocupado - Você conseguiu parar o carro com a mão mesmo?

Stanley ficou sem entender o que ele dizia por alguns instantes, até levantar e perceber a situação onde se encontrava. O capô da D20 estava completamente limpo como antes, e não havia nenhuma mulher ou caminhão parado na frente dele. O portão da padaria, entretanto, estava alguns metros à frente, como se o carro tivesse se deslocado de ré.

Depois que entraram no carro e continuaram subindo a rua, Herbert explicou como ele viu de dentro do portão aberto da padaria que o carro começava a descer a rua sozinho. Entre várias sessões de limpeza de suor do rosto com um lenço amassado, ele explicou que não vira ninguém no banco do carro, mas era provavelmente porque Stanley estava ocupado tentando parar o carro apertando o freio de estacionamento com a mão.

-Porque não usou o pé, cara? Ah, tá machucado feio mesmo né.

-É. - Stanley tinha o diário sobre o colo e sequer se lembrava de ter machucado as pernas.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Reencontro

Stanley virou-se novamente em direção à mulher esmagada entre os carros. O sorriso havia sumido e foi substituído por aquele mesmo olhar amargo de quando ele a viu pela primeira vez
(há muitos anos atrás)
antes do caminhão criar seu caminho de sangue. Ela falou, e sua voz não era amarga, mas bastante triste.

-O diário, meu doce... no banco do carro... vai rápido...

Stanley olhou pelo para-brisas do carro e um sentimento muito forte o invadiu. O diário estava ali, sobre o banco do carro, esperando finalmente que ele o encontrasse. Só podia estar ali. Ele se aproximou da porta da D20 e abriu-a com dificuldade - aparentemente a colisão havia amassado o encaixe e dificultado a abertura - e encontrou o banco vazio. O diário não estava ali. Mas ele o sentia.

Seus olhos correram para o lado oposto do carro, onde ficavam os pedais. Lá estava ele. Um livro de capa preta e grossa, apoiado levemente da lateral, ao lado do pedal de estacionamento. Certamente caíra ali com os movimentos bruscos do carro. Stanley deitou no banco e esticou o braço para pegar o livro. Quando o alcançou, sua mão apertou inevitavelmente o dito pedal e ele ouviu um zumbido estranho como se várias abelhas circulassem sua cabeça.

terça-feira, 11 de março de 2008

Afastado

Estive afastado do meu blog esses últimos dias porque tenho andado ocupado com minha mudança para Porto Alegre e com os preparativos para meu mestrado aqui. Agora que as aulas começaram eu percebo que terei o mínimo de tempo para escrever, mas assim que eu me acostumar irei continuar escrevendo, porque eu realmente gosto disso aqui.

Espero voltar brevemente para continuar a história de Stanley. Até mais.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O urso e o sorvete

A mulher vestia uma camisa branca de mangas compridas com o desenho de um urso de pelúcia tentando infantilmente alcançar um sorvete e tinha os cabelos pretos na altura dos ombros, levemente assanhados, mas ainda assim bonitos. Ela dirigia a ele um olhar amargo e cheio de raiva, que era enfatizado ainda mais por duas poças pretas ao redor dos olhos.

Stanley ouviu o som alto da buzina do caminhão vindo na direção da D20 e da mulher parada na frente do capô. Por um tempo que pareceu uma eternidade ele procurou o trinco da porta e chegou a acreditar que ele não existia, antes de finalmente conseguir puxá-lo e se jogar para fora do carro segundos antes do impacto do caminhão.

Do chão ao lado da porta Stanley viu a cena de muito mais perto do que gostaria. O caminhão ainda buzinava e não havia diminuído nem um pouco a velocidade. A mulher continuava parada na frente do capô, ainda olhando para ele, e ele percebeu agora que ela só usava uma calcinha cor de rosa além da camisa com o urso. O caminhão atingiu a mulher pelas costas, prendendo-a entre os dois carros. O som de metal amassando e da buzina do caminhão eram infernais na distância que ele estava, mas ele ainda conseguiu distinguir o grito de dor quando quase tudo da cintura pra baixo da mulher foi amassado como um boneco de pelúcia.

Aquela exótica montagem de carros, com a mulher no centro servindo como cola, ainda andou por vários metros, deixando no chão uma trilha de sangue e pneus, antes de parar completamente. Stanley se levantou de onde estava - já não sentia dor ou incapacidade alguma nas pernas - e correu acompanhando o rastro de sangue para onde a mulher jazia esmagada. O capô estava repleto de manchas de sangue mas o rosto dela continuava límpido, e mantinha um sorriso meigo, de quem enfrenta calmamente o fim da vida. Ele abriu a boca para falar alguma coisa e não se surpreendeu ao ouvir apenas um ruído enrolado de surpresa e nojo. Virou para o outro lado e caiu de joelhos vomitando.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Feliz cidade

Não haviam ainda deixado a rua com os chalés e o sol já iluminava completamente o dia. Quando os chalés terminaram dos dois lados e só se via um terreno baldio cercado por uma cerca precária coberta de vagetação à frente, eles viraram para a esquerda numa rua estreita que cabia apenas dois carros apertados.

Andaram uns dois quilômetros enquanto observavam ainda silenciosos a rua. Ao contrário dos chalés, aquelas casas eram velhas, algumas com parede muito sujas, outras sem reboco, com portas empenadas de madeira com frestas quase do tamanho de uma mão. Os tetos das casas eram baixos e dava pra ver o telhado enegrecido pelos anos a fio que aguentaram chuva e sol. As janelas, pelo menos das casas que tinham janelas, eram visivelmente velhas e frágeis.

O movimento do início do dia começava e muitas portas se abriam lentamente com se fossem pessoas com artrite. Homens empurrando bicicletas de barra circular saíam de algumas casas, preparados para enfrentar uma longa jornada em algum emprego de salário baixíssimo, absolutamente explorador. Mulheres com crianças de colo, daquelas que acordam pontualmente como um despertador de relógio, saíam à rua para apreciar o calor da manhã.

Eles andavam muito devagar, quase acompanhando algumas bicicletas que passavam dos lados ou garotos que corriam. Era impossível andar mais rápido naquele lugar. Muitas pessoas caminhavam, saindo de umas casas e entrando em outras, como se todos fossem de uma mesma grande família que se cumprimenta ao acordar.

Quando a D20 finalmente parou, encostando na calçada do lado esquerdo, obviamente na contra mão - mas a julgar pelo comportamento das pessoas que caminhavam no meio da rua, aparentemente nenhum outra carro passava por ali -, Herbert desligou o motor e dirigiu a Stanley a primeira frase desde que haviam entrado no carro.

-Volto já, não demoro. - E saiu na direção de um portão de ferro fechado.

Stanley viu o homem bater com a mão duas vezes no portão, mas os sons chegavam a ele como zumbidos de abelhas. Ele viu o homem lançar para ele um olhar um pouco amedrontado, e o viu dirigir o mesmo olhar, só que mil vezes mais aterrorizado, para alguma coisa na frente do carro. Ele olhou a tempo de ver uma mulher parada ali e um caminhão de refrigerantes que vinha na sua direção.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Introdução à Teoria das Regras

Vocês já devem saber, baseados nos estudos que tiveram até agora, que, na visão da ciência, o mundo é regido por leis. Em resumo, a natureza mantém sua consistência pela combinação de leis de várias ciências como a física, química, biologia e muitas outras. Devem se lembrar também que, embora o mundo "funcione" sem falhas, o modelos científicos que utilizamos para descrevê-lo são incompletos ou aproximados.

As leis são basicamente observações do comportamento do mundo traduzidas para modelos científicos, normalmente equações, como a equação que permite calcular a velocidade da queda de um corpo pelo efeito da gravidade. O modelo perfeito, ou seja, o mundo em funcionamento, como a própria queda de um objeto, seque o que nós chamamos de Regras.

Ao contrário das leis, as Regras não podem ser expressadas pela ciência. Elas fazem parte de um plano maior que o material, que envolve não só a ciência, mas também, e principalmente, como nós todos vemos e acreditamos no mundo.

Uma afirmação que foi feita por Allen diz o seguinte: "Achar que uma pedra cai para baixo faz com que ela caia para baixo." Enquanto essa afirmação ajuda a clarear o aspecto psicológico das regras, ela é no mínimo exagerada ou sonhadora. Obviamente ainda não sabemos se uma pessoa pode fazer uma pedra cair para cima tão facilmente e, principalmente, não sabemos que preço deve ser pago por isso.

O que nós chamamos de poderes psíquicos, magia ou outros vários nomes que existem por aí, e que eu imagino que vocês estejam loucos de excitação para começar a praticar, é na verdade, de acordo com as palavras de La Marc, "brincar com as Regras, como se fossem massa de modelar nas mãos de uma criança".

A Teoria Clássica das Regras afirma que as Regras podem ser distorcidas ou mesmo quebradas, para serem assim utilizadas com propósitos específicos. Enquanto essa visão explica a maioria dos fatores mágicos, assim com as leis da mecânica de Newton explicam o movimento que vemos no dia a dia, ela se invalida quando se trata de variações planares, sejam essas variações existenciais, espaciais ou temporais, da mesma forma que as leis de Newton se invalidam quando os corpos atingem velocidades próximas à da luz.

Para tentar explicar esses fenômenos planares foi criada a Teoria Planar das Regras. Essa teoria defende que as regras não podem ser entendidas ou explicadas pelas pessoas, apenas utilizadas e nunca distorcidas ou quebradas. De acordo com La Marc: "As Regras foram feitas para serem quebradas, como se seu quebramento fosse implícito do seu funcionamento."

A teoria Planar trouxe várias questões sobre a existência de uma entidade divina superior e é motivo de controvérsias e discussões fervorosas até hoje.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Agradecimentos

Eu fiquei muito satisfeito com o desenrolar dos meus dez primeiros posts. Não achei extremamente bons, mas achei que são até interessantes. Alguns são imaturos, mas eu me justifico nessa parte pela minha inexperiência.

Eu preciso agradecer a meus amigos por algumas opiniões "interessantes" que recebi (não foi Step?) que me mantiveram na linha e especialmente à Vanessa que serviu um pouco como minha editora pessoal. Muito obrigado.

Vou continuar escrevendo, e agora Stanley e Herbert vão fazer um passeio pela cidade, entregando pães e encontrando várias pessoas no caminho do hospital. Posso garantir pouca coisa porque realmente não sei o que vai acontecer.

Obrigado também aos que acompanharam até aqui. Leitores (ou eu diria amigos?) são muito importantes para quem escreve.

Até mais.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Uma carona

A perna direita do homem estava coberta de hematomas e raladuras. Não havia sangue novo, mas provavalmente porque ele havia sido lavado pela água da chuva.

Herbert sentiu uma onda de pena pelo homem sentado no chão. Deveria ser um bêbado qualquer atravessando a rua depois de uma noite de bebedeira que acabou não tendo muita sorte. Quem o atrapelou provavelmente fugiu sem se dar ao trabalho de chamar uma ambulância e o abandonou largado alí.

-Cara, isso ae tá feio. Vamos, vou te ajudar.

Começou a ajudar o homem a se levantar. Passou o braço pelas suas costas e ele fez o mesmo, conseguindo algum apoio. Caminharam lado a lado até a D20 de Herbert com dificuldade. Ele abriu a porta - tinha um jeitinho para ser aberta por fora, só ele sabia - e o homem entrou se arrastando para o banco do passageiro. Ele deu a volta, entrou pela sua porta e deu na chave.

Eles partiram em silêncio em direção ao dia que começava na cidade.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Razoavelmente familiares

O homem não conseguir sequer esboçar um caminhado e desabou no chão com um baque solene e um grito de dor.

-Ai minha perna! - Herbert achou que o homem fora traído por suas próprias pernas. Estava de pé antes mas não podia sequer levantar agora. E aqueles olhos? o que aconteceu com eles? subitamente sumiram e deram lugar a um olhar melancólico, como um cachorro se desculpando quando faz algo errado. Talvez ainda estivessem alí dentro daquele homem, na espreita, esperando para dar o bote na primeira oportunidade. E ainda tinha o nome. Como ele sabia seu nome?

-Melhorou mais agora, acho que não quebrou. - Falou ofegante o homem. Ele parou de gritar e seus gritos se transformaram em profundos suspiros de alívio. - Pode me levar pra casa Herbert?

-Quem é você? Você me conhece de algum lugar? - Herbert perguntou desconfiado. Não era alguém de destaque na sociedade - ele sabia, nunca seria apenas entregando pães, mas gostava de fazer um trabalho simples e útil - mas conhecia uma boa quantidade de pessoas, muitas das quais nem se lembrava de onde. Talvez esse fosse um deles. Talvez tivessem se encontrado em um bar qualquer e tomado um porre juntos e agora o cara achava que eram grandes amigos e ele o levaria pra casa. Até achou o cara razoalvelmente familiar agora que tivera mais tempo - e menos medo - de olhar para ele.

-Na verdade - ele falava enquanto levantava a perna da calça para conferir os ferimentos - nunca tinha te visto pessoalmente antes. Sei que você passa por minha casa porque reconhecí a D20 dos pães. - ele indicou com um movimento da cabeça o carro parado - Que porra, olha essa merda aqui!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Olhos insanos, parte 2

Herbert tentou se desvencilhar, balançando com força o braço e tentando andar para trás, mas o homem sequer parecia notar seus movimentos. Continuava segurando firmemente seu pulso, os olhos bem abertos e aquela expressão de loucura.

Ele vai me matar
, ele pensou, e finalmente sentiu um medo profundo, o verdadeiro medo da morte. O medo de se aproximar do corpo antes, o medo de ser preso ou o medo de perder o emprego na padaria eram só ensaios para o medo de verdade, e pareciam agora muito distantes e sem significado. Ele abriu a boca para gritar.

O homem de olhos insanos levou o dedo indicador da mão livre para a boca fazendo um sinal de silêncio. Herbert continuou tentando gritar, tentando fazer seu corpo fugir, mas percebeu que não fazia movimento algum. Estava totalmente paralisado. Se era de terror ou se o homem estava fazendo alguma coisa ele não sabia, mas por dentro ele gritava a plenos pulmões.

Meu Deus não me deixe morrer desse jeito. Desse jeito não.

Ainda segurando o pulso de Herbert, o homem levantou-se. Estavam agora cara à cara no meio da rua. O sol já começava a despontar e os raios de luz que passavam entre as árvores eram como lâminas douradas cortando o chão.

O homem afrouxou o aperto no seu pulso e Herbert sentiu o sangue voltando à mão. Começou a pensar em fugir de novo, mas ficou novamente paralisado pela frase que saiu da boca do homem.

-Pode me dar uma carona Herbert?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Olhos insanos, parte 1

Depois de encostar a D20, Herbert saiu do carro e caminhou em direção ao corpo. À medida que se aproximava, seu temor aumentava. O que fazia um corpo jogado alí, estranhamente parado, antes do amanhacer? Imaginou se não seria um bêbado que perdeu o caminho de casa, ou alguma vítima de assassinado, e se ele próprio não seria acusado de alguma coisa. Talvez não acreditassem que ele estava apenas passando coincidentemente por alí.

Ele se aproximou mais e se sentiu aliviado por não haver nenhuma mancha de sangue. Depois se lembrou de que a chuva da noite passada, mesmo tendo sido pouca, poderia tê-las lavado. Tentou imaginar por quanto tempo aquele homem estivera deitado alí. Talvez até morasse num dos chalés engraçados da rua, quem sabe até aquele da pintura infeliz.

Quando chegou bastante próximo notou, pela respiração forte - como a de um atleta cansado, mas misturada com um zumbido meio rouco - que o homem dormia e estava tendo um pesadelo. Mexia a cabeça de um lado para o outro e apertava os olhos com força. Herbert olhou para os lados e não viu ninguém mais na rua, estava deserta como ele nunca a vira antes. Não sabia se isso era bom ou ruim.

Não fosse pela maneira terrível que ele se mexia no chão - mexendo a cabeça para os lados e, a partir de um certo momento, se debatendo e contorcendo como se estivesse tendo um ataque - Herbert talvez tivesse corrido para a D20 e abandonado o homem alí. Ninguem saberia mesmo, pensara ele.

Nunca vira ninguém se mexer de forma tão grotesca enquanto dormia e decidiu que tiraria o homem daquela tortura. Começou falando baixinho - Ei, senhor - e ouvir sua própria voz lhe concedeu um pouco mais de coragem.

-Ei, amigo. Acorda aê véi.

Ao notar que não havia reação alguma da parte do homem, se abaixou um pouco e tocou levemente seu ombro direito enquanto falava.

-Ei cara, acor...

Numa fração de segundo, Herbert viu olhos se abrindo, muito azuis, e exalando uma sensação de completa insanidade. O corpo havia parado de se contorcer, mas ainda estava numa posição grotesca exceto pelo braço direito, que se projetou sobre o corpo e agarrou firmemente o punho esquerdo de Herbert.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Encontro providenciado

Herbert sempre começava sua jornada diária muito cedo. Antes do sol nascer ele já dirigia sua D20 azul, carregando os pães que distribuiria pela cidade. Não era padeiro, mas arranjara o emprego de entregador com o dono de uma padaria perto de sua casa três anos atrás. O salário era baixo mas dava para sustentar sua vida de solteiro solitário. Sempre sobrava um dinheiro pra beber nos finais de semana e quem sabe conseguir o que ele chamava de "diversão masculina saudável".

Naquele dia ele subia pela rua paralela à avenida principal. Não era muito grande e não dava pra andar muito rápido também, mas alguma coisa o atraia naquele dia. Ele dirigia muito calmamente, olhando para as casinhas ao redor com uma expressão de preguiça e carinho. Eram pequenos chalés na verdade, simples, mas bonitos.

O sol ainda não havia aparecido, mas estava próximo disso, e a rua estava colorida por uma luz agradável e levemente cinza. Enquanto observava um dos chalés com uma pintura infeliz de verde desbotado com adornos laranja, Herbert captou de relance uma mancha escura no asfalto adiante. Ele se concentrou e apertou os olhos pra enxergar na meia-luz.

Havia um corpo estirado no chão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Luzes que traem

As luzes ficavam alguns segundos apagadas, depois piscavam uma vez e voltavam a descansar.

Stanley olhou para trás. Ele viu apenas os faróis do carro fazendo sombras grotescas na superfície da água. Quandos as luzes piscaram, ele viu rapidamente o carro se aproximando, com os pneus jogando água para os lados como se fosse um grande monstro faminto. Ele começou a correr.

Era difícil correr com as calças molhadas e carregando o livro. A luminária de pouco servia, pois iluminava menos de um metro na sua frente. Ele não havia se afastado muito da mesa, quando ouviu um estrondo de madeira e vidro quebrando. Olhou para trás e captou, na fração de segundo em que a luz piscou, a imagem atrás de si, como se fosse um quadro muito real.

O carro era um Honda Civic prateado, com os vidros muito escuros e não se via quem dirigia. Havia quatro longos arcos de água saindo dos pneus. O farol direito estava partido e pedaços de vidro e gotas dágua confundiam-se flutuando no ar. Logo à frente, a parte mais pesada da mesa, onde ficavam as gavetas, estava girando para fora do caminho do carro. A parte mais leve, agora separada brutalmente da outra metade, flutuava no ar em direção a Stanley.

A luz apagou de novo e ele se deixou cair, esperando desviar do impacto da mesa. Sentiu uma pontada de dor no ombro direito e deixou a luminária cair na água e apagar-se. Uma ponta da mesa o atingira, mas girara por cima, caindo logo à sua frente e espirrando água no seu rosto. Havia escapado do impacto maior.

O Civic vinha agora muito próximo e Stanley teve tempo apenas para dar um pequeno salto para a esquerda. O carro atingiu suas pernas e ele girou no ar antes de cair de costas na água e afundar metade do corpo, exceto pelo braço esquerdo que segurava o livro para o céu. O carro colidiu novamente com a parte mais leve da mesa, girou de lado e parou alguns metros à frente.

A dor nas pernas era insuportável. Sentia várias pontadas subindo até o meio da coxa na perna direita e aparemente não sentia a perna esquerda. Stanley olhou para o carro e, novamente em uma fração de segundo em que a luz iluminou a rua, viu a porta do motorista aberta e uma bota preta e suja de areia encostada na água, e então não viu mais nada.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O símbolo da loucura

Stanley não precisava enxergar para saber que tipo de mesa era aquela. Ele se lembrava. Era uma escrivaninha muito simples, de um tom amarronzado, com quatro gavetas do lado direito e um espaço para as pernas. Ele se curvava sobre ela, tateando toda a sua superfície, quando sua mão encontrou um objeto.

Ele puxou para o encontro de sí e logo identificou, pelo tato, sua luminária de mesa. Se ligada numa tomada, bastaria desdobrá-la para conseguir um cone de luz igual àqueles que os postes faziam na rua escura. O fio que saia de sua base - Stanley constatou seguindo-o com a mão - acabava desolado sobre a mesa.

Num gesto meio automático, meio esperançoso, Stanley abriu a luminária molhada. Uma luz branca e muito forte surgiu de dentro dela, quase cegando seus olhos acostumados com a escuridão. Ele os cobriu com a mão, e colocou a luminária sobre a mesa, logo acima das gavetas, enquanto se acostumava com a luz.

Na completa escuridão de antes, aquela luz parecia muito aconchegante. De onde estava, ela iluminava a ponta da mesa, as gavetas e a água que escorria logo abaixo. Stanley sentiu o ar ficar mais leve e o frio diminuir um pouco.

A chuva que caira e se acumulara no tampo da mesa começava agora a escorrer para as gavetas. O que quer que ouvesse ali dentro provavelmente não duraria muito tempo, caso a água começasse a tomar conta de tudo. Ele puxou então a primeira gaveta, protegendo-a da chuva com o próprio corpo, sem saber totalmente o que esperava encontrar. Havia vários papéis sob uma pasta azul, um pacote de halls preto e um cinzeiro de vidro, mas nada lhe chamou realmente a atenção.

Na segunda gaveta havia novamente uma grande quantidade de papéis ligeiramente familiares, mas o que atraiu sua atenção foi o que estava sobre eles. Era um livro de capa preta e dura. Não havia nome algum, exceto por um único adorno: um símbolo em dourado. Eram três barras em pé, como um três romano, sublinhadas por uma outra barra deitada. Ele o pegou e sentiu um arrepio subir a espinha.

Abraçando o livro com força contra o peito, com o braço esquerdo, para protejê-lo da chuva, e segurando a luminária com a mão direita, o fio balançando loucamente com o vento, Stanley começou a andar de novo. Dessa vez na direção de onde viera, na direção para a qual a água escorria. Precisava sair dalí.

Não deu mais que um passo quando as luzes dos postes recomeçaram a piscar, sobressaltando-o por alguns intantes. Não eram apenas os postes próximos, mas todos da rua. Ele ouviu um ruido alto de carro vindo de trás, e o som de água sendo revirada com estrondo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Sons do passado

Stanley havia perdido praticamente todos os sentidos, exceto a audição. Não via nada, não havia cheiro ou gosto algum pra sentir e o frio já deixara seu corpo totalmente dormente. Talvez por causa disso, ele começou então a ouvir mais claramente.

Ouvia um som baixo, além do chiado da chuva, além do escorrer da água. Era tão baixo que ele chegou a se perguntar se não era sua própria imaginação. Parecia vir do seu lado esquerdo, onde ele imaginava ser o centro da rua, e onde estivera antes de começar a correr em desespero. Juntou forças para se levantar e, tremendo compulsivamente, começou a atravessar a parte mais alagada em direção ao centro. A água estava na altura dos joelhos, e ele imaginou como antes correra por ali sem sequer notar o peso que suas pernas ganhavam. Agora estava quase impossível andar.

Quanto mais se aproximava do som, mais claro ele ficava. Era um chiado também, mas esse era diferente. A chuva estava caindo sobre alguma coisa que não era água. E era como se aquilo fosse uma música que o atraía. Quando se aproximou mais, percebeu que só podia ser madeira. Sim, era algo de madeira. Ele se aproximou ainda mais, até que o som encheu seus ouvidos e ele sabia que aquilo estava agora exatamente à sua frente. Estendeu a mão, querendo tocar o que quer que houvesse ali. Na altura da cintura, encontrou alguma coisa. Ele mexeu um pouco a mão, medindo a extensão da coisa plana de madeira. Era uma mesa. Mas não era qualquer mesa. Era uma mesa bem específica, a qual ele conhecera muito bem, e da qual se lembrava nas produndezas mais aterrorizantes da sua mente.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Os demônios da escuridão

Stanley andou na escuridão durante muito tempo. Talvez tivessem passado várias horas, mas ele não sabia dizer. Já havia parado para descalçar os tênis e as meias, que jogara para o lado na água que ainda escorria bravamente.

Ele olhou ao redor e percebeu que só via quatro postes no total. Dois à frente, dois atrás. O resto do mundo parecia que fora tomado completamente pela escuridão. Ele também não se lembrava daquela rua seguir em linha reta por um caminho tão longo, e as casas começaram a parecer sem foco, como se estivessem menos reais.

Subitamente a luz dos postes começou a oscilar. Ele parou durante um tempo, observando as gotas cairem brilhantes sob as luzes que piscavam, até que a escuridão tomou conta de tudo.

Stanley tentou olhar para as próprias mãos, mas não conseguia sequer diferenciar se estava de olhos abertos ou fechados. Ouvia apenas o som da chuva forte e da água que escorria. Ele se sentiu estranhamente acompanhado, como se várias pessoas estivessem ao seu redor, observando-o. A sensação de que estava acompanhado foi ficando cada vez mais forte, chegando a fazê-lo pensar que estava parado em meio a uma multidão. Ele correu na escuridão, tentando embarrar em alguém para aliviar o que sentia. Ao menos assim saberia que estava realmente acompanhado. Por um momento ele teve certeza que esbarraria, estava bem na sua frente, mas não havia nada. Só podia ter desviado. Ele correu em outra direção, depois em outra, depois em outra. Balançava os braços tentando abraçar o que quer que encontrasse, mas não encontrou ninguem.

-Apareça!! - ele gritou, percebendo derrepente que sentia muito mais frio agora. Estava quase insuportável. Sopros de ar branco saiam de sua boca. Ele se agachou até o chão, abraçando as pernas na frente do peito e tremendo compulsivamente.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Aquele que persegue os segredos da noite

Stanley gostava de caminhar. Muitas vezes ele passava a noite inteira vagando pelas ruas, observando as casas velhas e os postes iluminando os cantos com seus cones de luz fraca e amarela. Todas as casas estavam apagadas, portas e janelas trancadas. Ele achava que as pessoas se trancavam daquela forma, escondendo-se da escuridão da noite, porque no fundo sabiam que a noite trazia muitas coisas que elas se recusavam a aceitar. Ele as procurava.

Chovia naquele dia. A chuva viera muito de repente, quase instantaneamente, como alguem que abre a porta sem bater e joga um balde de água em todos na sala. Os carros pareciam formigas atiçadas correndo sem direção pela cidade, fazendo grandes ondas com a água que escorria nas ruas. Até que a noite finalmente desabou sobre o mundo e todos se refugiaram em suas casas.

Os esgotos haviam subido e inundado a calçada dos dois lados. A rua era ligeiramente curva e o centro dela, onde Stanley andava, era mais alto, por isso lá a água só alcançava o tornozelo. Mesmo assim ele sabia que aqueles tênis não serviriam mais pra nada. Ele olhou pra frente e não viu mais do que dez metros adiante. A escuridão era esmagadora. O vento vinha de dentro dela como o sopro da boca de um monstro.

Ele tremia. Fazia muito frio e suas calças jeans estavam molhadas e pesadas. Ele caminhava com dificuldade, curvado para a frente tentando proteger o rosto e os braços da chuva que caia. De vez em quando uma rajada de água fria o atingia no rosto como balas, e ele era forçado a virar de lado e esperar. Quando podia enfim continuar, voltava à sua marcha lenta e pesada em direção à escuridão.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Palavras de um não contador de histórias

Uma vez eu fiz um blog. Era tosco. Tinha um template com uma foto do leão do Blind Guardian e um monte de textos ridículos sobre onde eu tinha ido e o que eu tinha comido e com quem eu tinha saído e blah blah blah...

Dessa vez é diferente.

Estou fazendo um blog. É tosco. Tem um template padrão, que eu planejo personalizar manualmente depois pra lembrar chuva forte à noite, ou fazer referência à Torre Negra. Além do mais, pretendo escrever (sim!) pequenas histórias - flashes, na verdade - que popam (do verbo to pop) na minha cabeça de vez em quando.

Eu escrevo ridiculamente mal. Fiz 14,5 pontos na redação do meu vestibular - de 30, onde quase todo mundo faz 26 ou mais - mas preciso urgentemente anotar (sim, é isso que meu blog é, um bloco de notas) as aventuras que esse pessoal vive na minha cabeça. Eu diria até que o que eu escrevo acontece de verdade e eu apenas vejo e conto, mas Gan não escolheu um bom contador de histórias nesse caso.

Mas não sou de todo pessimista. Escrevendo eu espero aprender a escrever, e estou muito ansioso pra saber como vai se passar a história de Stanley, Tina, Ben, Victor e os outros.

Me desejem sorte, e que os olhos do Rei me deixem contar a minha história.